
O que os dados mostram — e o que o setor precisa enfrentar
Por alguns anos, falar de EdTech foi quase sinônimo de falar de tecnologia. Plataformas, inteligência artificial, realidade imersiva, dashboards, algoritmos. Em 2026, essa narrativa começa a perder força. Não porque a tecnologia tenha falhado — mas porque ficou claro que ela não resolve sozinha problemas que são, antes de tudo, humanos, estruturais e culturais. Ou seja, a tecnologia em si deixa de ser peça central e entram outros protagonistas.
Essa mudança de perspectiva aparece logo no artigode Eduardo Marques, ao analisar as tendências para desenvolvimento de líderes e programas de desempenho. Para ele, o avanço tecnológico só faz sentido quando combinado a método, contexto e julgamento humano. Como destaca em seu texto, “as tecnologias estão direcionando o desenvolvimento de lideranças para ecossistemas contínuos de aprendizagem, que combinam dados, personalização e experiências práticas, sem abrir mão do olhar humano”.
O ponto é claro: não se trata de substituir pessoas por sistemas, mas de usar tecnologia para apoiar decisões melhores, feedback mais frequente e processos de desenvolvimento mais objetivos — especialmente em ambientes onde desempenho e sucessão não podem depender apenas de intuição. Aliás, quase nunca é assim.
Os indicadores globais e brasileiros reforçam isso. Estamos diante de uma combinação perigosa de defasagem educacional, baixo letramento digital, aceleração do mercado de trabalho e esgotamento humano. Nesse contexto, EdTech é convocada a atuar sobre fragilidades que são, antes de tudo, educacionais — e não apenas tecnológicas.
O ponto de partida: não há inovação possível sem uma base sólida
O PISA 2022 mostrou que cerca de metade dos estudantes brasileiros de 15 anos não atinge o nível mínimo de proficiência em leitura. Isso significa dificuldade efetiva de interpretar textos, articular ideias e aprender de forma autônoma. Não é uma questão técnica, não é um detalhe, mas sim um gargalo estrutural.
O PISA continua sendo a principal referência internacional e o ciclo de 2022 permanece como o mais recente com dados comparáveis públicos. Ele mostrou que cerca de metade dos estudantes brasileiros de 15 anos não atinge o nível mínimo de proficiência em leitura — um sinal claro de dificuldade para interpretar textos, articular ideias e aprender de forma autônoma. Não se trata de um detalhe apenas técnico, mas de um gargalo estrutural.
Esse quadro é reforçado por indicadores mais recentes da OCDE. No Education at a Glance 2025, o Brasil apresenta taxa de conclusão do ensino médio inferior à média dos países da OCDE, evidenciando trajetórias educacionais interrompidas e lacunas acumuladas ao longo da formação básica. O dado aponta para um problema persistente: fragilidades de base continuam acompanhando estudantes até o final da educação formal, impactando diretamente sua capacidade de aprender ao longo da vida.
Sem leitura, não há pensamento crítico. Sem escrita, não há autoria. Sem autoria, a aprendizagem perde profundidade. EdTech, nesse contexto, não pode avançar apenas na camada tecnológica sem que a base esteja minimamente consolidada.
No artigo de Carla Zeltzer, a educação básica aparece como o teste definitivo para qualquer discurso sério sobre inovação.
“Criar novos espaços para que alunos da escola pública descubram suas motivações e desenvolvam seus talentos é condição para que estejam prontos para explorar oportunidades de forma equitativa.”
O caso da FazGame mostra, na prática, que tecnologia só gera impacto quando está a serviço de expressão, narrativa e prática, e não apenas de consumo de conteúdo. É EdTech como infraestrutura de equidade, não como vitrine.
Letramento digital: a tendência-mãe que sustenta todas as outras
Outro dado pouco confortável: menos de 20% da população brasileira com mais de 10 anos possui habilidades digitais de nível intermediário — ou seja, a capacidade de usar tecnologia com autonomia, senso crítico e produtividade.
Isso explica por que tantas iniciativas falham na adoção. A tecnologia chega antes da base. O resultado é frustração, abandono e desperdício de investimento.
Patrícia Nogueirachama atenção para esse risco com a clareza de quem está olhando o problema de perto.
“Quando usamos a IA apenas para fazer mais rápido aquilo que já fazíamos mal, estamos só empunhando um martelo novo para problemas antigos.”
A crítica não é à IA, mas ao uso acrítico dela. Sem letramento — digital, cognitivo e pedagógico — a tecnologia reforça modelos ultrapassados em vez de transformá-los.
Essa limitação não é apenas técnica. Ela é, sobretudo, comportamental. Ao analisar a relação entre tecnologia, decisão e aprendizagem, Fanny Araújo lembra que “de nada adianta o melhor aplicativo se o comportamento do usuário continua priorizando recompensas imediatas em detrimento de benefícios futuros”.
Personalizar é essencial, mas não se sustenta sem contexto. Sem considerar hábitos, vieses e a forma como as pessoas realmente tomam decisões, sistemas sofisticados perdem tração na prática e acabam esvaziados no uso diário. Tecnologia sem arquitetura comportamental tende a ficar no campo da intenção, sem se converter em mudança real.
O trabalho mudou. A aprendizagem precisa mudar junto.
Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, o equivalente a 22% dos empregos globais será transformado até 2030. Funções desaparecem, outras surgem, quase todas se redesenham. O saldo pode ser positivo — mas apenas para quem consegue sustentar uma lógica de aprendizagem contínua (lifelong learning) ao longo da vida profissional.
Esse movimento reposiciona o papel da EdTech corporativa. Aprender deixa de ser benefício. Passa a ser estratégia de sobrevivência. Como observa Maria Ribeiro, ao tratar a aprendizagem como eixo organizacional, “aprender não é mais acumular conhecimento, mas transformar experiência em ação, sentido e decisão”.
Cursos isolados e plataformas-repositório não acompanham esse ritmo. O que cresce são jornadas conectadas aos desafios concretos do trabalho, prática no fluxo, ações de reforço, feedback constante e aprendizagem alinhada à estratégia do negócio.
IA: de espetáculo tecnológico a infraestrutura silenciosa
A Gartner aponta a inteligência artificial como eixo central das tecnologias estratégicas dos próximos anos. Ainda assim, o valor não está no brilho da ferramenta, mas na forma como ela se integra ao trabalho cotidiano. Murillo Moraes traduz bem essa mudança ao afirmar que “a IA não é o futuro distante. Ela já é o novo Excel — quem não aprender a usá-la no dia a dia vai ficar para trás”.
Em EdTech, isso se reflete em um uso mais maduro da IA: como copiloto que apoia análise, personalização responsável, preparação e tomada de decisão. Ela não substitui o humano. Amplifica.
Esse uso mais maduro da inteligência artificial aplicada à aprendizagem aparece de forma concreta no artigo de Alvaro Pistono, ao tratar a personalização não como promessa abstrata, mas como viabilização prática em escala. Para ele, a IA permite superar limites históricos da educação ao transformar dados de uso e desempenho em experiências ajustadas ao ritmo e às necessidades de cada pessoa. Como destaca em seu texto, “a personalização da aprendizagem deixa de ser um ideal teórico quando sistemas conseguem observar o comportamento do usuário e adaptar trilhas, conteúdos e reforços em tempo real”.
Ao trazer exemplos de tutores virtuais, trilhas adaptativas e ambientes pessoais de aprendizagem, Alvaro reforça um ponto central para a EdTech de 2026: personalização não é apenas recomendação de conteúdo, mas acompanhamento contínuo, suporte contextual e capacidade de ajuste ao longo da jornada. Nesse modelo, a tecnologia deixa de substituir o educador ou o gestor e passa a ampliar sua capacidade de decisão, sustentada por evidências e não por suposições.
Esse pano de fundo tecnológico, no entanto, também impõe limites pouco discutidos. Jorge Audrin chama atenção para a infraestrutura que sustenta essa expansão ao observar que “a rápida ascensão da inteligência artificial está forçando uma transformação radical no design e na construção de data centers, enquanto a infraestrutura global ainda demonstra estar despreparada para acompanhar esse ritmo”. O recado é direto: escalar tecnologia exige investimento pesado, planejamento e formação de profissionais — e vai além de narrativas otimistas.
Governança, ética e segurança deixam de ser opcionais
À medida que soluções EdTech passam a concentrar dados sensíveis de colaboradores, líderes e estudantes, a governança deixa de ser tema jurídico periférico e passa a integrar o próprio desenho das soluções. Carlos Coan sintetiza esse ponto com objetividade ao lembrar que “não existe inovação sustentável sem ética, segurança e responsabilidade no uso de dados”.
Em um ambiente de regulação crescente e risco reputacional elevado, soluções que não nascem com governança embutida tendem a perder espaço, independentemente do quão avançadas pareçam.
Essa ampliação do olhar sobre governança também passa, de forma cada vez mais concreta, pela agenda de diversidade e inclusão. No artigo de Flávia Cortinovis, a discussão se afasta de abordagens simbólicas e se aproxima de impacto mensurável, especialmente em contextos digitais e tecnológicos. Como ela aponta, “diversidade e inclusão deixam de ser discurso quando passam a integrar a governança, o desenho dos produtos e os critérios de qualidade das soluções tecnológicas”.
Ao relacionar D&I à inovação, à mitigação de riscos e à competitividade, Flávia reforça um ponto central para a EdTech de 2026: não há tecnologia educacional de qualidade sem inclusão, nem personalização efetiva sem diversidade de perspectivas. Em ambientes mediados por dados, algoritmos e analytics, a ausência desse olhar não apenas limita o alcance das soluções, como compromete sua eficácia e legitimidade.
O fator humano que ninguém pode mais ignorar
A Organização Mundial da Saúde estima que 15% dos adultos em idade ativa convivem com algum transtorno mental, gerando perdas anuais de produtividade estimadas em cerca de US$ 1 trilhão por ano. Está longe de ser um tema periférico; ele impacta diretamente o desempenho e a capacidade de aprender.
Essa perspectiva aparece de forma consistente no trabalho de Newton Villa Verde, ao conectar saúde mental, dados e contexto organizacional. Em seu artigo, ele observa que “não existe desempenho sustentável sem saúde mental; quando os dados ignoram o humano, eles explicam números, mas não explicam pessoas”.
A mesma preocupação aparece no texto de Abbadhia Vieira, que trata o humor como ferramenta séria de mudança ao lembrar que “o riso não é distração. É um mecanismo cognitivo que reduz defesas, cria vínculo e fixa aprendizagem”.
A ciência confirma o que a prática já mostra: sem ambientes de confiança, vínculos positivos e senso de pertencimento, não há adoção tecnológica que se sustente. EdTech que ignora isso até pode escalar usuários, mas dificilmente transforma comportamento.
Liderança, comportamento e mudança sustentada
A EdTech de 2026 também avança sobre um território antes tratado como intangível: comportamento e liderança. IA, gamificação e analytics passam a ser usados para sustentar mudanças ao longo do tempo. Marcos Martins resume bem essa convergência ao afirmar que “desenvolver líderes hoje exige combinar diagnóstico, prática contínua e tecnologia que acompanhe a evolução real do comportamento”.
Não se trata de treinar para saber mais, mas de aprender para agir diferente, em ciclos contínuos de mudança, mesmo sob pressão.
Essa busca por equilíbrio entre tecnologia, experiência e escala aparece também no artigo de Jaqueline Mutarelli, ao destacar que “a educação digital deixa de ser apenas transmissão de conteúdo e passa a entregar jornadas de aprendizado mais práticas, flexíveis e alinhadas às demandas concretas do trabalho”.
A consolidação de ecossistemas colaborativos aponta para um movimento consistente do setor: o diferencial deixa de estar na plataforma em si e passa a se concentrar na capacidade de combinar pessoas, conhecimento e tecnologia com qualidade, personalização e atualização contínua.
O que realmente define a EdTech de 2026
Quando os dados se alinham às leituras do campo, a conclusão é clara: EdTech em 2026 não se sustenta apenas pela tecnologia.
Avança quem entende que a aprendizagem é um sistema vivo, no qual convivem base educacional consistente e bem construída, letramento digital, IA pragmática, comportamento humano, emoção, governança e impacto mensurável.
Quando a EdTech é tratada como produto, a disputa se dá por preço. Quando é compreendida como infraestrutura estratégica de desenvolvimento humano, o que se constrói é futuro.
Sylvia Meireles
CEO & Founder da Fábrica de Cursos, playNwhere e Rapid Learning. Atua há mais de duas décadas na interseção entre educação, tecnologia e desenvolvimento humano, apoiando organizações na construção de estratégias de aprendizagem que geram impacto real. É mentora, conselheira e uma das vozes ativas do ecossistema EdTech no Brasil.