
Se 2025 consolidou a IA como copiloto da jornada de compra, 2026 aponta para um salto mais ousado: a IA deixando de apenas recomendar para efetivamente comprar por nós. O que antes era sobre encurtar a jornada agora é sobre eliminá-la. E isso muda tudo.
Há anos que especialistas em e-commerce e UX discutem como encurtar a jornada de compra, como reduzir cliques, como tirar atritos do caminho entre o desejo e o pagamento. A IA trouxe uma resposta quase provocativa: “me peça, é só pedir”. E assim terceirizamos mais uma ação quase diária da nossa rotina — o comprar.
O Google anunciou o Universal Commerce Protocol (UCP), a Amazon lançou o “Buy for Me”. São agentes de IA capazes de conversar com lojas, interagir com meios de pagamento, comparar preços, avaliar os critérios da sua busca e, sem um único clique, concluir a compra. A interface deixa de ser uma loja ou marketplace. Passa a ser uma conversa.
Não é só sobre tecnologia – é sobre comportamento. Pesquisas recentes já mostram que as IAs são presença forte e recorrente no processo de compra, principalmente entre a geração Z. Para quem cresceu pedindo corrida por aplicativo e dividindo conta no Pix, delegar a compra a um agente digital não parece radical. Parece eficiente.
Entretanto, ao atravessar o Atlântico, esses agentes de IA devem encontrar pontos importantes de fricção. O padrão de compra do brasileiro vai além da escolha do produto – é quase uma estratégia financeira. A decisão, nos trópicos, muitas vezes não é “posso pagar?”, mas “como posso pagar melhor?”. Desconto no Pix, Pix parcelado, pagar com dois cartões, aplicar cupom, ativar cashback, retirar na loja para fugir do frete… A jornada brasileira é criativa – e bastante complexa.
Além dos pagamentos, há a questão logística. Estamos falando de um país continental e nada homogêneo. Prazo e custo de entrega variam drasticamente por região, endereços são difíceis de padronizar, transportadoras operam com regras próprias e bastante divergentes entre si. Em um universo em que a IA toma decisões autônomas, cada variável adiciona uma camada de complexidade – e a fragmentação do e-commerce brasileiro deve representar um grande desafio para esses agentes.
No campo mais cultural, existe ainda o tema das fraudes. Mais de 56 milhões de brasileiros já sofreram golpes virtuais financeiros. Entregar a decisão de compra a uma IA exige construir uma narrativa sólida de confiança, segurança e controle. Quem responde se a IA compra errado? Quem assume se ela escolhe o parcelamento menos vantajoso? O consumidor brasileiro gosta de ter a palavra final – e, muitas vezes, de revisar três vezes antes de confirmar.
Ainda assim, seria ingenuidade imaginar que essa onda não chegará em breve ao Brasil. Talvez o caminho comece com a IA negociando junto ao usuário, simulando cenários de pagamento e deixando o checkout na mão do consumidor. Mas é provável que o UCP se tropicalize – e que, em pouco tempo, passe a fazer parte da rotina de compra do brasileiro.
No fim, a revolução não será sobre deixar de clicar. Será sobre confiar – e sobre fazer o consumidor ganhar cada vez mais tempo e eficiência.
Daniela Torres
Sócia e CEO Simples Inovação | Diretora TI RIO | Varejo Digital | Growth e Performance Digital