
O mercado brasileiro de tecnologia da informação segue em expansão, mas já não opera sob a mesma lógica dos últimos anos. Depois de um ciclo de forte aceleração impulsionado pela digitalização, pela migração para a nuvem e pela adoção crescente da inteligência artificial, o setor entra em uma nova fase, marcada por maior seletividade nos investimentos, pressão por eficiência e necessidade de geração de valor concreto.
Dados do estudo mais recente da ABES, desenvolvido a partir de análises da IDC, mostram que o setor alcançou US$ 67,8 bilhões em 2025, consolidando o Brasil como o principal mercado de tecnologia da América Latina e mantendo o país na 10ª posição global.
O crescimento de 18,5% registrado em 2025 colocou o Brasil acima da média mundial, mas a projeção para 2026 indica uma desaceleração para 5,3%. Esse movimento, longe de representar retração, sinaliza uma inflexão estrutural: o mercado deixa de operar sob a lógica da expansão acelerada e passa a priorizar eficiência, escala e integração.
Esse ajuste reflete uma mudança mais profunda no comportamento das empresas. Se, nos últimos anos, o foco esteve na digitalização rápida e na adoção de novas tecnologias, agora a prioridade passa a ser consolidar esses investimentos, integrar sistemas, reduzir redundâncias e extrair valor mensurável das soluções implementadas.
A inteligência artificial, que até recentemente funcionava como principal vetor de expansão, também muda de papel. Em vez de diferencial competitivo pontual, passa a ser tratada como base estrutural das operações digitais, integrada aos processos de negócio e diretamente ligada à tomada de decisão.
Ao mesmo tempo, o estudo evidencia um traço importante do estágio atual do mercado brasileiro: a forte concentração ainda em hardware, responsável por quase metade dos investimentos. Esse dado revela tanto a necessidade contínua de expansão da infraestrutura quanto uma oportunidade clara de evolução, com tendência de crescimento mais consistente em software e serviços, especialmente em modelos baseados em nuvem, dados e inteligência artificial.
O que se observa, portanto, é a transição de um ciclo orientado à adoção tecnológica para um ciclo orientado à maturidade operacional.
Mais do que investir, torna-se necessário justificar, integrar e sustentar.
Da expansão à execução: por que a IA ainda não entrega valor
Se o estudo da ABES revela a mudança de lógica do mercado, a análise da Red Hat ajuda a entender como essa transformação se manifesta dentro das empresas.
A Red Hat, multinacional de tecnologia especializada em soluções open source corporativas e infraestrutura para ambientes híbridos e de missão crítica, aponta que a inteligência artificial entrou em uma nova fase. Depois de anos de testes, pilotos e promessas de ganho de produtividade, o foco deixa de ser o potencial da tecnologia e passa a ser sua capacidade de gerar retorno financeiro.
A análise se apoia em dados e estudos de alcance global, incluindo referências ao MIT e ao Gartner, e não se limita a um recorte brasileiro. Ainda assim, os padrões observados são estruturais e se refletem diretamente no contexto nacional, especialmente em um mercado que, como mostra a ABES, está em processo de amadurecimento e racionalização dos investimentos.
Os dados são contundentes. Apenas uma pequena parcela dos projetos de IA consegue sair da fase experimental e gerar impacto mensurável no negócio. A maioria permanece restrita a provas de conceito, sem escala, sem integração e sem retorno financeiro efetivo.
O problema não está na capacidade dos modelos, que evoluem rapidamente e se tornam cada vez mais acessíveis, mas na ausência de fundamentos para sustentá-los.
Infraestrutura inadequada, ambientes fragmentados, falta de interoperabilidade entre sistemas, lacunas de governança e dificuldades operacionais impedem que a IA seja incorporada de forma consistente às operações. Sem essas condições, a tecnologia não se traduz em eficiência, nem em ganho competitivo.
Nesse contexto, a inteligência artificial deixa de ser o centro da discussão.
O foco passa a ser a base que permite sua operação.
A IA deixa de ser tendência e assume o papel de infraestrutura.
E, como qualquer infraestrutura crítica, exige planejamento, arquitetura robusta, padronização e capacidade de operação em escala.
Um novo ciclo para o setor
O que se desenha a partir desses movimentos não é uma desaceleração no sentido tradicional, mas uma mudança de etapa. O setor de tecnologia entra em um novo ciclo, menos marcado pela velocidade da adoção e mais orientado pela capacidade de execução.
Nos últimos anos, a prioridade foi avançar. Digitalizar processos, migrar para a nuvem, incorporar novas tecnologias, testar soluções. Esse movimento ampliou o acesso, acelerou investimentos e colocou a inovação no centro das decisões.
Agora, o desafio é outro.
Com a tecnologia já incorporada ao dia a dia das empresas, o foco passa a ser fazer essa estrutura funcionar de forma integrada, eficiente e sustentável. Isso exige revisar arquiteturas, conectar sistemas, estabelecer governança, reduzir complexidades e alinhar tecnologia às prioridades reais do negócio.
A pressão deixa de estar na inovação pela inovação e se desloca para a geração de valor.
Nesse novo contexto, competitividade não se define mais pela adoção de tecnologia, mas pela capacidade de operá-la com consistência, extrair inteligência dos dados e transformar investimento em resultado concreto.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser