Se agentes se tornarem a principal interface entre usuários e sistemas, qual parte da sua empresa continua sendo indispensável?

se agentes se tornarem a principal interface entre usuários e sistemas, qual parte da sua empresa continua sendo indispensável

A inteligência artificial começa a passar da assistência à execução de tarefas. Pesquisas recentes mostram onde essa mudança já aparece e quais perguntas as empresas de tecnologia precisam fazer sobre seus produtos

Durante anos, a relação entre pessoas e software seguiu uma lógica conhecida: o profissional entra em um sistema, consulta informações e realiza uma tarefa. A inteligência artificial generativa acrescentou ajuda a esse processo. Ela escreve, resume, pesquisa e sugere caminhos, enquanto a pessoa continua operando as aplicações.

Os agentes de IA introduzem uma possibilidade diferente. Uma pessoa define um objetivo e o agente consulta dados, utiliza ferramentas e executa etapas do trabalho. Se essa forma de operação se ampliar, o cliente poderá obter resultados de um software sem precisar passar por sua interface a cada ação. Para quem desenvolve tecnologia, isso levanta uma questão: onde está o valor do produto quando outra ferramenta passa a operá-lo?

Há sinais concretos desse movimento, embora a adoção varie entre setores e empresas. Em pesquisa divulgada em 23 de setembro, a Cisco informou que 51% dos líderes de TI e operações de rede entrevistados disseram que suas organizações já utilizam agentes capazes de agir em ambientes de produção. Nesse caso, as ações incluem, por exemplo, ajustar parâmetros de rede e responder a incidentes. O levantamento, conduzido pela Omdia, ouviu mil profissionais de organizações com pelo menos 500 funcionários na América do Norte, Europa Ocidental e Ásia-Pacífico. Os números descrevem operações de rede nesse grupo, não o conjunto do mercado de software.

Outra pesquisa ajuda a dimensionar a mudança para além das redes. Em levantamento global publicado em agosto, a McKinsey registrou que 40% dos entrevistados de grandes organizações relataram estar ampliando o uso de agentes de IA em ao menos uma função. Entre organizações menores, o percentual foi de 22%. A mesma pesquisa mostrou que 32% dos respondentes disseram que suas empresas haviam desistido de comprar ao menos um produto ou recurso de software por entender que poderiam desenvolvê-lo internamente com ferramentas de programação baseadas em agentes. Isso indica pressão sobre decisões de compra, mas não permite concluir que os fornecedores existentes perderão seu espaço.

Onde pode estar o valor de um software

Imagine uma empresa que usa sistemas diferentes para vendas, atendimento e finanças. Hoje, um funcionário pode precisar entrar em cada aplicação para reunir dados e concluir uma solicitação. Um agente autorizado a acessar esses sistemas poderia consultar o histórico de um cliente, verificar uma pendência financeira, preparar uma resposta e encaminhar uma decisão que exija aprovação humana.

Nesse cenário, a interface deixa de ser necessariamente o único caminho para acessar o serviço. O produto, porém, pode continuar indispensável. Alguém precisa manter os dados corretos, aplicar as regras do negócio e registrar as operações. A análise da McKinsey sobre infraestrutura para agentes destaca a importância de conectar ferramentas, dados e sistemas transacionais para que eles consigam executar processos.

Para uma empresa de tecnologia, o exercício prático é examinar seu produto em quatro frentes:

  1. Dados: o sistema guarda informações confiáveis e atualizadas? Um agente consegue consultá-las com o contexto necessário?
  2. Processo: o produto incorpora regras e conhecimento específico do negócio do cliente? Quais etapas ele permite concluir?
  3. Integração: outras ferramentas conseguem acessar suas funções de maneira controlada?
  4. Segurança: é possível determinar quais ações um agente pode executar, exigir aprovação nas decisões sensíveis e identificar o que ele fez?

Essa última frente ganha peso quando agentes recebem acesso a e-mails, arquivos, cadastros ou sistemas financeiros. A Microsoft já trata agentes como identidades digitais próprias, com permissões e mecanismos de governança. É um exemplo de como o mercado começa a desenvolver controles para sistemas que não apenas consultam informações, mas também agem sobre elas.

O modelo de negócio também entra na discussão

Grande parte do software empresarial é vendida por licença ou número de usuários. Se agentes executarem uma parcela maior das tarefas, fornecedores e clientes poderão discutir outras formas de medir o valor entregue, como volume de operações ou tarefas concluídas. A McKinsey aponta essa possibilidade, mas ressalta que os modelos de cobrança ainda estão em evolução. A licença por usuário pode continuar fazendo sentido para muitos produtos.

Para as empresas de tecnologia do Rio de Janeiro, esse debate abre uma agenda concreta de produto e de serviços: preparar integrações, organizar dados, desenvolver aplicações para processos específicos e oferecer controles para o uso empresarial de agentes. Também é uma oportunidade para conversar com os clientes sobre o trabalho que precisam concluir, além das funcionalidades que gostariam de acrescentar.

Os agentes ainda não transformaram todos os setores da mesma maneira. Mas os sinais já permitem que cada empresa examine seus produtos, seus dados e a função que desempenha nos processos dos clientes. A pergunta, portanto, é uma provocação para orientar essa reflexão: se agentes se tornarem a principal interface entre usuários e sistemas, qual parte da sua empresa continua sendo indispensável?

Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser

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