Samsung sofre para fazer seu software para celulares decolar

Um esforço ambicioso da Samsung Electronics Co. para lançar smartphones equipados com um novo sistema operacional corre o risco de naufragar.

A maior fabricante de smartphones do mundo está investindo uma grande quantidade de recursos num sistema operacional chamado Tizen para desafiar o duopólio hoje nas mãos da Apple Inc. e do Google Inc.

Mas algumas das principais operadoras de telefonia móvel do mundo estão começando a retirar o apoio que estavam dando para os telefones programados para usar o sistema.

O Tizen também está tendo dificuldade para atrair grandes desenvolvedores de aplicativos que se tornam cada vez mais importantes para a experiência do usuário. Isso está deixando a nova plataforma nas mãos de empresas minúsculas, relativamente desconhecidas, como a de Daniel Escobar, um desenvolvedor de 34 anos que mora em Atlanta.

A empresa sul-coreana está apoiando o serviço de compartilhamento de música Maestro, de Escobar, que tem cerca de 30 mil assinantes, com dezenas de milhares de dólares em incentivos financeiros e apoio técnico para desenvolver um aplicativo para o Tizen.

É fundamental para a Samsung encontrar um sistema operacional para dispositivos móveis e uma estratégia de serviços.

Fabricantes chinesas de smartphones — incluindo a Lenovo Group Ltd., potencialmente fortalecida depois de anunciar a compra da unidade de celulares Motorola Mobility, do Google — ameaçam baixar os preços dos celulares e reduzir as margens de hardware. Isso faria com que software e serviços passassem a ser a principal fonte de lucro da indústria.

“As necessidades dos consumidores estão se transformando junto com a mudança dos tempos”, disse um dos diretores-presidentes da Samsung, Boo-Keun Yoon, no mês passado. “Não acho que seja possível liderar o mercado focando apenas em software ou hardware.”

Os smartphones mais vendidos da Samsung atualmente rodam o sistema operacional Android, do Google, e vêm com o e-mail, as funções de mapeamento e o “mobile ad”, que seleciona e publica propagandas relacionadas com as pesquisas do usuário, todos do Google, pré-instalados. Como resultado, é a empresa americana que leva uma parcela de cada compra feita via sua loja virtual.

Se o Tizen for bem-sucedido, ele daria à Samsung um fluxo próprio de receita com a venda de aplicativos, software e serviços de terceiros em seus dispositivos.

O potencial é enorme. Em seu ano fiscal mais recente, a Apple gerou US$ 16 bilhões com vendas de software e serviços, incluindo as lojas iTunes e App.

A Samsung, que tem desenvolvido o Tizen com a ajuda da Intel Corp. e outras empresas, está investindo bilhões de dólares por ano no desenvolvimento mais geral do software e dedicando cerca de 60% dos 67.000 engenheiros da sua área de pesquisa e desenvolvimento para a inovação de software. A empresa sul-coreana ainda tem planos de contratar mais 800 engenheiros por ano.

No longo prazo, o objetivo da Samsung com o Tizen — assim batizado para evocar uma ligação (tie, em inglês) “zen” entre diferentes dispositivos e suas funcionalidades — é que ele sirva como um sistema operacional unificado capaz de coordenar as funções de todos os dispositivos de um consumidor, como um smartphone, uma geladeira, um aparelho de televisão e uma máquina de lavar roupa, todos produtos que a empresa fabrica.

Um dos protótipos de dispositivos do Tizen, ao qual o The Wall Street Journal teve acesso, parece com os dispositivos que usam o Android. Ambos os sistemas operacionais compartilham um código-fonte comum de programação. Mas as pessoas envolvidas no projeto dizem que os protótipos não podem ser considerados produtos finais e que o apelo do Tizen é que ele permite uma maior personalização da interface pelas operadoras e pelos fabricantes em relação ao Android.

No entanto, executivos e analistas da indústria dizem que tem sido difícil fazer o Tizen decolar.
A NTT DoCoMo Inc., maior operadora de telefonia do Japão e uma parceira importante no desenvolvimento do Tizen, estava planejando apresentar seu primeiro smartphone com o sistema operacional da Samsung em meados de janeiro, diz uma pessoa a par do assunto.

Mas no dia marcado para o lançamento, a DoCoMo adiou seus planos, citando a baixa demanda no mercado doméstico por um sistema operacional alternativo ao Android e ao iOS, da Apple.

Duas semanas mais tarde, o diretor-superintendente da DoCoMo, Kaoru Kato, disse numa coletiva de imprensa sobre os resultados trimestrais da companhia que “o Tizen continua a ser extremamente importante”. Mas, acrescentou, “vamos acompanhar as tendências do mercado global para tomar uma decisão sobre o lançamento”.

A americana Sprint Corp. se juntou à Associação Tizen em maio de 2012, mas deixou o grupo no ao passado. A espanhola Telefónica optou pelo Firefox, da Mozilla, como sistema operacional alternativo ao Android e ao iOS para entrar no mercado latino-americano de telefonia voltado para a baixa renda, segundo uma pessoa a par do assunto. A francesa Orange, outra parceira do Tizen, planejava lançar seu primeiro aparelho equipado com o novo sistema operacional junto com a DoCoMo, mas informou que o desenvolvimento do Tizen “não está tão maduro como esperávamos neste momento”.

A Samsung respondeu que iria avaliar a oferta de produtos com as operadoras no Japão e na França. A Samsung afirmou que ela e seus parceiros vão apresentar neste mês uma prévia dos aparelhos equipados com o Tizen, durante Mobile World Congress, evento internacional de telefonia móvel que ocorre anualmente e que desta vez será em Barcelona.

A dificuldade da Samsung em lançar seu próprio sistema operacional se dá em meio a uma série de medidas que parecem ter melhorado o relacionamento com o Google — um relacionamento que estava ficando cada vez mais tenso. Embora o Google e a Samsung continuem a propagar a força de sua parceria em público, as empresas têm pisado uma no pé da outra, o que fez com que a Samsung acelerasse seus esforços para desenvolver o Tizen.

Na semana passada, a Samsung e o Google divulgaram um abrangente acordo de licenciamento para uso de patentes que inclui patentes existentes e aquelas que forem desenvolvidas nos próximos dez anos.

Três dias depois, o Google informou que vai vender sua unidade Motorola Mobility para a Lenovo por US$ 2,9 bilhões, livrando-se de um concorrente direto dos smartphones da Samsung que usam o Android.

Não está claro se a recente aproximação da Samsung com o Google foi motivada pelas dificuldades com a Tizen.

“Temos uma relação estreita com o Google e vamos continuar a ser um importante parceiro estratégico e a colaborar juntos”, disse um porta-voz da Samsung. A Samsung vai continuar a apoiar sistemas operacionais múltiplos, segundo ele.

(Colaboraram Mayumi Negishi, de Tóquio, Sam Schechner, de Paris, David Román, de Madrid, e Ryan Knutson, de Nova York.)

Site: The Wall Street Journal
Data: 07/02/2014
Hora: 12h03
Seção: Notícias
Autor: Jonathan Cheng
Link:  http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424052702303496804579367132592070124?mg=reno64-wsj&url=http%3A%2F%2Fonline.wsj.com%2Farticle%2FSB10001424052702303496804579367132592070124.htmlI

Pesquise no TI RIO