
Economia circular transforma equipamentos descartados em matérias-primas, empregos e oportunidades de inovação, mas o país ainda aproveita apenas uma pequena parcela desse potencial.
A rápida evolução tecnológica reduz continuamente o ciclo de vida de computadores, servidores, celulares, monitores, impressoras e diversos outros equipamentos eletrônicos. Como consequência, cresce em ritmo acelerado a geração de resíduos eletrônicos, um dos fluxos de resíduos que mais aumentam em todo o mundo. O que muitas vezes é percebido apenas como um desafio ambiental representa, na realidade, uma oportunidade econômica capaz de impulsionar uma nova cadeia produtiva baseada nos princípios da economia circular.
Ao contrário do modelo tradicional de produzir, consumir e descartar, a economia circular busca manter produtos, componentes e matérias-primas em circulação pelo maior tempo possível. No caso dos resíduos eletrônicos, isso significa recuperar metais estratégicos, reaproveitar componentes, remanufaturar equipamentos e reinserir materiais na indústria, reduzindo a extração de recursos naturais e ampliando a geração de valor ao longo de toda a cadeia produtiva.
Segundo o Global E-waste Monitor 2024, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) e pelo Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR), os números demonstram a dimensão dessa oportunidade. Em 2022, o mundo gerou aproximadamente 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, mas apenas 22,3% desse volume foi oficialmente coletado e reciclado. Como consequência, cerca de US$ 62 bilhões em materiais recuperáveis deixaram de retornar à economia. O relatório estima ainda que, se a taxa global de coleta e reciclagem alcançar 60% até 2030, os benefícios econômicos poderão superar os custos em mais de US$ 38 bilhões.
Um mercado bilionário ainda pouco explorado
No Brasil, esse potencial permanece amplamente subaproveitado.
Estudo publicado na SciELO aponta que os resíduos eletrônicos figuram entre os fluxos de resíduos sólidos urbanos que mais crescem no país. O Brasil responde por aproximadamente 16,36% dos resíduos eletrônicos gerados nas Américas, com produção média de 10,2 quilos por habitante.
Apesar desse volume expressivo, estima-se que apenas 3% dos resíduos de equipamentos eletroeletrônicos ingressem nas cadeias formais de reaproveitamento. Isso significa que toneladas de cobre, alumínio, ouro, prata, plásticos de engenharia e diversos outros materiais de elevado valor econômico deixam de retornar ao processo produtivo todos os anos.
Embora ainda não exista uma estimativa consolidada sobre o tamanho desse mercado no Brasil, especialistas apontam que a economia circular dos resíduos eletrônicos tem potencial para movimentar bilhões de reais por ano, à medida que a logística reversa, a desmontagem técnica, o reaproveitamento de componentes, a reciclagem de alto valor agregado e a remanufatura avancem no país.
Muito além da reciclagem
Falar em economia circular é falar de uma nova lógica de desenvolvimento.
Mais do que reciclar equipamentos, esse modelo cria uma cadeia de valor que envolve coleta, logística reversa, desmontagem especializada, recuperação de componentes, reaproveitamento de peças, reciclagem de materiais estratégicos e remanufatura de equipamentos.
Cada computador, servidor ou monitor destinado corretamente deixa de ser apenas um equipamento descartado para se transformar em matéria-prima para novos produtos, reduzindo a dependência da extração de recursos naturais e ampliando a eficiência no uso dos materiais.
Além dos ganhos ambientais, esse modelo estimula o surgimento de novos negócios, fortalece empresas especializadas, impulsiona a inovação e amplia a geração de empregos em uma cadeia produtiva que tende a ganhar cada vez mais relevância nos próximos anos.
Uma oportunidade que o Brasil ainda desperdiça
O baixo índice de reaproveitamento dos resíduos eletrônicos faz com que o Brasil deixe de capturar uma oportunidade estratégica de desenvolvimento.
Ao não reinserir esses materiais no processo produtivo, o país perde a possibilidade de ampliar uma cadeia econômica capaz de gerar empregos qualificados, fomentar inovação, desenvolver novas tecnologias de reaproveitamento e fortalecer a indústria voltada à economia circular.
Ao mesmo tempo, equipamentos descartados de forma inadequada representam riscos ambientais importantes. Muitos contêm metais pesados e outras substâncias que, quando não recebem destinação correta, podem contaminar o solo, os recursos hídricos e comprometer a qualidade ambiental.
Transformar resíduos eletrônicos em novos insumos industriais significa reduzir impactos ambientais, preservar recursos naturais e criar um modelo de desenvolvimento que alia competitividade, sustentabilidade e inovação.
TI Rio fortalece essa transformação
No estado do Rio de Janeiro, a TI Rio desenvolve, desde 2012, a Campanha de Coleta de Resíduos Eletrônicos, iniciativa que promove a destinação ambientalmente adequada de equipamentos descartados pelas empresas e os encaminha para parceiros especializados em reciclagem e reaproveitamento de materiais.
Ao longo de sua trajetória, a campanha já recolheu mais de 30 toneladas de resíduos eletrônicos, contribuindo para reduzir impactos ambientais e incentivar a adoção de práticas alinhadas aos princípios da economia circular.
Além de garantir a destinação correta dos equipamentos, as empresas participantes recebem um Certificado de Destinação Ambientalmente Adequada, documento que comprova a responsabilidade ambiental da organização e fortalece suas ações de ESG e sustentabilidade. Em muitos processos de contratação e licitações, essa certificação representa um importante diferencial competitivo, podendo contribuir para a pontuação das empresas em editais públicos e privados.
Mais do que uma campanha de coleta, a iniciativa busca conscientizar o setor produtivo de que os resíduos eletrônicos possuem valor econômico e podem retornar ao ciclo produtivo como matéria-prima para novos produtos. É uma contribuição concreta para a construção de uma economia circular capaz de gerar inovação, empregos, desenvolvimento industrial e benefícios ambientais.
A campanha permanece em andamento e a TI Rio reforça a importância da adesão massiva das empresas fluminenses. Cada equipamento destinado corretamente representa menos impacto ambiental, mais recursos retornando à indústria e um passo importante para consolidar uma nova cadeia produtiva baseada na economia circular. Participar da campanha é contribuir para transformar resíduos eletrônicos em desenvolvimento econômico, competitividade e sustentabilidade para o estado do Rio de Janeiro. Para participar, basta entrar em contato com o TI Rio pelo e-mail .
Texto: Bruno Nasser