Na última sexta-feira, em sua coluna no Segundo Caderno, do O Globo, Hermano Vianna pergunta quem fará o Facebook brasileiro. Sua preocupação é com a alfabetização digital de nossa sociedade. Nós, brasileiros, somos bons de usar a internet. Somos os segundos em inúmeras redes. Às vezes, até os primeiros. Mas quando, pergunta Hermano, começaremos a participar de forma mais ativa da invenção da rede? Ele sugere que este processo começa pela educação escolar. Deveríamos ensinar linguagens de programação para as crianças. É um excelente início. E, como contribuição para a conversa, não custa dar uma olhada no Vale do Silício original para explorar sua fórmula. Ela é complexa, embora simples de explicar. A receita para criar um Vale do Silício carioca é a que segue.
O primeiro passo é uma Universidade dedicada ao projeto. O Vale californiano é fruto da Universidade de Stanford. No Brasil, estudantes de Engenharia saem da escola com o sonho de encontrar um baita emprego. Em Stanford, saem querendo fazer fortuna e mudar o mundo. O espírito empreendedor domina o campus em todos os cursos. A base é tecnológica, muita programação e matemática. Mas todos os cursos em volta, de Administração de Empresas a Antropologia, passando pelo Jornalismo, são impregnados neste processo de imaginar um mundo diferente, com soluções inovadoras. No Rio, este processo deveria nascer de uma de suas melhores escolas: UFRJ ou PUC. Só é possível em universidade que produza conhecimento, com uma vida acadêmica rica, não basta ser fábrica de diplomas.
O segundo passo é a presença de estrangeiros. Passeie no campus de Stanford no verão. As meninas da Califórnia estão sempre lá, com seus shorts muito curtos, conversando com muçulmanas de corpos cobertos. Árabes e mexicanos, indianos, iranianos, negros e brancos, chineses, japoneses, brasileiros, Stanford e o Vale são uma mistura de sotaques e tons de pele. A contínua exposição a culturas diferentes abre a cabeça, reprograma o cérebro. É a base da criatividade no Vale. E já foi a do Brasil. Além do quê, importar cérebros é sempre bom negócio.
Daí vêm os venture capitalists. Investidores cujo negócio é botar dinheiro em empresas que podem ficar muito, muito grandes. Embora os grandes bancos estejam em São Paulo, muitos dos principais fundos de investimento ficam entre o Leblon e o Centro. E esta cultura de botar dinheiro em startups começa a surgir. Com os juros bancários caindo, este tipo de investimento se torna mais interessante. Há chances.
Um Facebook carioca é possível
Outro ponto no qual o Rio leva vantagem é o ambiente agradável. O Norte da Califórnia tem verão farto, o inverno não é muito agressivo, a cidade grande mais próxima, São Francisco, tem uma cultura tolerante que aceita todos. As escolas são excelentes para as crianças. É um lugar no qual dá vontade viver. Por motivos distintos, o Rio também é um canto do mundo no qual dá vontade viver, também tem uma cultura tolerante. Há defeitos sérios: o setor de serviços é terrível, irresponsável. O trânsito, obra coletiva de nós todos, cariocas, é agressivo. Mas dá para resolver.
Mais difícil é outro problema: infraestrutura. Estado e Prefeitura têm de botar a mão no bolso e já, se o projeto for sério. Banda larga do tipo em que 100 Mbps é comum, barato e confiável tem de existir em toda parte. E em algum distrito, talvez o Porto, talvez a Barra, mas um lugar no qual ainda seja barato montar escritório, é preciso haver uma super infra de banda e eletricidade. Porque parque de servidores não usa nem pouca banda, nem pouca eletricidade. Tem que ser coisa a prova de apagão, com vida própria. Ser barato é importante porque, para correr risco na criação de uma jovem empresa, o fracasso não pode custar uma fortuna. Startups de sucesso nascem da experiência de quem fracassou na empresa anterior.
Universidade, estrangeiros, investidores, local bom de morar e infraestrutura. Esta é a receita de um Vale do Silício. É difícil e caro. Mas dá para fazer e gera riqueza que levanta toda a sociedade. Não é um mal projeto. Basta, apenas, que um administrador o abrace. Sem isso, não vai.
Site: O Globo
Data: 04/02/2013
Hora: 22h30
Seção: Economia
Autor: Pedro Doria
Link: http://oglobo.globo.com/economia/receita-de-vale-do-silicio-7492448