
Durante décadas, as grandes consultorias globais construíram um império bilionário ajudando empresas a implementar sistemas, modernizar processos e conduzir projetos de transformação digital. Agora, a mesma revolução tecnológica que impulsionou seu crescimento ameaça corroer as bases do próprio negócio.
A recente queda das ações da Accenture acendeu um alerta em todo o mercado. Após revisar para baixo suas expectativas de receita para 2026, a companhia viu seus papéis despencarem cerca de 18% em um único dia, acumulando perdas expressivas ao longo do ano. O movimento não é isolado e evidencia uma mudança estrutural no setor.
O fim de um modelo que dominou a era do software
A lógica que transformou a Accenture em uma gigante global, com cerca de 800 mil funcionários, era relativamente simples: à medida que as empresas adotavam softwares cada vez mais sofisticados, surgia a necessidade de contratar especialistas para implementá-los, integrá-los às operações e treinar equipes.
Foi um modelo extremamente lucrativo durante a ascensão da computação em nuvem, dos ERPs corporativos, dos CRMs e da transformação digital.
Mas a chegada da inteligência artificial generativa alterou radicalmente essa dinâmica.
Hoje, tarefas que antes demandavam centenas de horas de consultoria, como desenvolvimento de código, documentação técnica, análise de dados, elaboração de relatórios, treinamento e suporte, podem ser executadas em poucos minutos por sistemas inteligentes.
Surge, então, o chamado “paradoxo do consultor”: as empresas de consultoria vendem soluções baseadas em inteligência artificial para seus clientes, mas essa mesma tecnologia reduz a necessidade dos serviços que historicamente sustentaram suas receitas.
O efeito dominó nas gigantes globais
A pressão não atinge apenas a Accenture.
Outras empresas do setor também enfrentam perdas significativas em valor de mercado.
A IBM, que possui uma importante divisão de serviços profissionais, acumula queda próxima de 15% no ano.
A Infosys, uma das maiores consultorias globais de origem indiana, registra desvalorização próxima de 37%.
A Cognizant, referência em outsourcing e transformação digital, acumula perdas de aproximadamente 46%.
A EPAM Systems, especializada em design, engenharia digital e inteligência artificial, já perdeu cerca de 61% do seu valor.
Embora diversos fatores macroeconômicos influenciem essas empresas, como a desaceleração econômica global, a redução dos investimentos corporativos e as incertezas geopolíticas, a inteligência artificial tornou-se um dos principais elementos de transformação do setor.
Uma reconfiguração do papel das consultorias
Isso não significa o fim das consultorias, mas pode representar o esgotamento de um determinado modelo de negócio, historicamente baseado na venda intensiva de horas de trabalho, implementação de sistemas e alocação de grandes equipes.
O que as evidências apontam é que o setor tende a passar por uma profunda reconfiguração. Diante do avanço da inteligência artificial, será necessário reajustar posicionamentos e assumir funções cada vez mais estratégicas dentro da cadeia de valor da economia digital.
Uma transformação que vai além das consultorias
O que acontece hoje com as gigantes globais do setor pode ser um indicativo de uma mudança mais ampla em todo o mercado de tecnologia.
A inteligência artificial não está apenas criando novas profissões. Ela está redesenhando cadeias inteiras de valor, alterando a forma como serviços são entregues, como empresas geram receita e como o trabalho especializado será remunerado daqui para frente.
Mais do que uma crise setorial, o momento atual parece representar uma transição de modelo econômico, na qual empresas, profissionais e organizações precisarão encontrar novos caminhos de atuação em um ambiente cada vez mais orientado pela inteligência artificial.
Texto: Bruno Nasser, com informações de TechDrop