
Por Alberto Blois
Tenho participado de uma série de debates sobre inteligência artificial no Rio de Janeiro e uma coisa tem ficado cada vez mais evidente: o estado vive um momento decisivo na disputa pela nova infraestrutura da economia digital.
Essa discussão apareceu no AI Summit Rio 2026, um dos principais eventos sobre inteligência artificial do estado, e também no Rio Info Centro Sul 2026, realizado pela TI Rio como parte de um circuito de eventos que vem percorrendo diferentes regiões do interior fluminense debatendo inteligência artificial, nova economia, agentes autônomos, infraestrutura digital e transformação tecnológica. O que antes parecia um debate restrito ao setor de tecnologia passou a ocupar o centro das discussões sobre desenvolvimento econômico, competitividade e futuro das cidades.
Durante o AI Summit Rio, na mesa de abertura ao lado de lideranças do setor e do secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro, Gabriel Medina, surgiu uma reflexão importante. Ao comentar os planos estratégicos que o Rio de Janeiro possui para se consolidar como polo de infraestrutura digital e inteligência artificial, Gabriel Medina mencionou como o avanço desses projetos poderia ganhar outra velocidade caso o Redata tivesse sido mantido.
E foi justamente a partir dessa fala que fiquei pensando: como poderia ser o cenário do Rio de Janeiro hoje se o Redata tivesse avançado?
O Redata tinha um objetivo extremamente estratégico. O regime buscava reduzir o custo de implantação e expansão de data centers no Brasil por meio da desoneração de equipamentos e componentes fundamentais para esse tipo de infraestrutura. Em troca, as empresas assumiriam compromissos ligados à pesquisa, inovação, sustentabilidade e ampliação da capacidade computacional disponível no país.
Na prática, o projeto atacava exatamente os pontos mais sensíveis desse mercado: tributação, custo de equipamentos importados e previsibilidade regulatória.
E isso importa muito.
Porque quando falamos de inteligência artificial, estamos falando também de infraestrutura física. Estamos falando de energia, processamento, conectividade, armazenamento de dados e capacidade computacional. Sem isso, não existe IA em escala. E sem capacidade de acelerar esse tipo de infraestrutura, o próprio protagonismo que o Rio de Janeiro construiu corre o risco de perder velocidade diante de um cenário global cada vez mais competitivo, como se uma névoa diminuísse parte do potencial que o estado possui para liderar essa transformação digital.
O Rio de Janeiro hoje reúne condições extremamente estratégicas para ocupar esse espaço. Temos conectividade internacional, cabos submarinos, demanda corporativa, capacidade energética e projetos estruturantes sendo desenhados. O Rio AI City talvez seja hoje um dos exemplos mais simbólicos dessa ambição de transformar o estado em um polo latino-americano de infraestrutura digital.
O que o Redata faria seria acelerar esse processo.
Talvez essa seja a palavra central dessa discussão: velocidade.
Os projetos não deixam de existir sem o regime. O problema é que ficam mais caros, mais lentos e menos competitivos diante de um cenário global onde outros países já entenderam que infraestrutura digital virou questão estratégica de desenvolvimento econômico.
E o Rio poderia capturar muito desse movimento.
Estamos falando de investimentos bilionários, geração de empregos qualificados, fortalecimento do ecossistema tecnológico e atração de operações ligadas à inteligência artificial, computação em nuvem e processamento de dados. Não se trata apenas de tecnologia. Trata-se da construção de uma nova camada econômica baseada em infraestrutura digital.
É importante destacar mais uma vez: essa discussão não está restrita à capital. Ela atravessa diferentes regiões do estado, tendo a inteligência artificial como eixo central dos debates sobre desenvolvimento econômico, mercado, infraestrutura, inovação e os rumos futuros do Rio de Janeiro.
O estado já começou a construir esse caminho. E certamente chegará onde deseja chegar, porque o Rio de Janeiro possui protagonismo, potencial estratégico e uma das principais capacidades de formação de talentos e pensamento tecnológico do país. As mentes, a pesquisa, a produção acadêmica e a construção de conhecimento continuam sendo ativos fundamentais do estado nessa transformação. O desafio adicional talvez esteja justamente na velocidade necessária para acompanhar a dimensão do que já está em curso no cenário global.
Vale lembrar que, embora o dispositivo que criou o Redata tenha perdido eficácia no cenário imediato, o espírito da proposta ainda não morreu. Existem movimentações políticas e legislativas tentando manter vivo o debate sobre incentivos voltados à infraestrutura digital e aos data centers no país. Entre elas, aparece o PL 278/2026, que surge como uma alternativa para preservar parte desses estímulos.
Com ou sem Redata, o Rio de Janeiro possui a matéria-prima, o conhecimento, a capacidade técnica e o ecossistema necessários para se consolidar como um dos principais polos de inteligência artificial da América Latina. O Rio já é protagonista dessa discussão. O debate, agora, talvez esteja menos na capacidade de chegar e mais na velocidade com que o poder público, os instrumentos regulatórios e as políticas de incentivo conseguirão ajudar o estado a ocupar esse lugar.
O Rio de Janeiro está pronto.
Alberto Blois
Presidente da TI Rio