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Mountain View, Palo Alto e São Francisco. No dicionário do Vale do Silício nenhum verbo é tão importante quanto inovar. Em cada empresa, um exército de engenheiros, vendedores e marqueteiros diariamente tenta identificar problemas na economia, nas ciências e na vida cotidiana, para em seguida bolar soluções para resolvê-los, com uma tecnologia revolucionária.
A força motriz da região é a criatividade. E para estimular seus talentos, a comunidade high tech tem uma cartilha própria, na qual comida grátis, mesas de sinuca, instalações com fios aparentes, jornada flexível, lousas nas paredes e tapete vermelho para animais de estimação se misturam para criar um ambiente vibrante, que convide à troca de ideias e inspire a fidelidade dos profissionais. A expressão RH está inclusive sendo aposentada — no Vale do Silício, o gerenciamento de recursos humanos é uma “Operação de Pessoas”.
— Para conseguir inovar, é preciso criar as condições propícias à inovação e motivar os talentos a abraçar a missão, que no nosso caso é conectar mais um bilhão de pessoas à internet. O Google não é uma empresa convencional e nem pretende se tornar uma. Sempre vamos enfatizar uma atmosfera de criatividade e dar voz aos googlers (o apelido dos funcionários).
Nossas paredes são cobertas de lousas onde todo mundo deixa um recado para a companhia ou uma sugestão para o trabalho do outro _ diz Ivetta Brigis, gerente de talentos do departamento de Operação de Pessoas da empresa.
O quartel-general do Google em Mountain View é a reprodução fiel deste conceito. Com um quadro de pessoal jovem, a sede foi concebida como um moderno campus universitário, onde cada detalhe é pintado com as cores chamativas do logo da empresa. Na praça do prédio principal, grandes mesas de refeição, com coloridos guarda-sóis, fazem par com um esqueleto gigante de dinossauro. Ao fundo, acontece uma partida de vôlei de praia na quadra instalada no centro do pátio _ numa das mais concorridas atividades do QG.
_ A atividade física torna as pessoas mais produtivas, então todo mundo aqui é estimulado a malhar. Particularmente, prefiro nadar na piscina coberta. Mas a academia de ginástica do campus é uma obra-prima _ explica o engenheiro Cliff Radeker, de 30 anos, há seis trabalhando no Google no programa de testes de produtos da casa.
Google Glasses no rosto _ há seis meses usa um dos novíssimos aparelhos da empresa _, Cliff discorre sobre outros mimos do Google. No campus, cachorros podem trabalhar com os donos, cada um faz seu horário e escolhe a decoração da baia em que trabalha _ porta-retratos convivem com imensos bichos de pelúcia e objetos extravagantes de gosto duvidoso. Tem gente que se desloca nos corredores de patinete e há os que dispensam as escadas e descem para o refeitório por um escorregador metálico. Para circular pelo campus, o meio preferencial são as bicicletas, fornecida pelo Google no programa de bike share.
Para desestressar, há aulas práticas como as de culinária e um salão de jogos de dar inveja a muitos resorts. Uma quantidade expressiva de funcionários veste moletons com o nome Google estampado no peito.
_ Aqui a ideia é que você pode ser sério sem vestir um terno. Mas o uso dos moletons também reflete o sentimento de pertencimento, exatamente o motivo pelo qual você desfila de moletom com o nome da faculdade que frequentou. Googlers têm orgulho da marca e isso estimula que trabalhem duro pela próxima invenção que vai manter a empresa na liderança _ ensina o engenheiro.
O engajamento com a marca se estende à família. O programa de visitas dos filhos dos funcionários foi ampliado para incluir cônjuges, pais e irmãos. Cliff já levou a família toda para conhecer o Google _ e a companhia ganhou, em troca, três novos usuários do Gmail. Outro toque clássico do Vale do Silício que a empresa é a boca-livre sete dias por semana no refeitório. Mas, com trocadilho, não existe almoço grátis.
Refeições de graça foram estabelecidas para estimular que as pessoas conversem, troquem ideias, relatem o que estão fazendo. É quando as áreas interagem e podem aproveitar conhecimentos _ explica Cliff, acrescentando que às sextas-feiras o fluxo de informações torna-se frenético, quando os fundadores Larry Page e Sergey Brin se juntam aos principais executivos do Google num chat global com os seus 42 mil funcionários.
O Google não é uma empresa exótica. O manual de incentivo à inovação, com os mesmos capítulos, é reproduzido em todo o Vale do Silício, seja qual for o porte da firma.
_ Temos mais de 600 funcionários, a maioria entre 25 e 30 anos. Para mantê-los aqui, no frisson que é o mundo tech do Vale, o mais importante é despertar o amor pela marca e pela conexão com o consumidor. O cara tem que querer estar aqui. Temos um escritório cool, onde tudo é grátis, incluindo os petiscos _ afirma Duncan Robertson, chefe de operações financeiras do Open Table, maior plataforma internacional de reservas online em restaurantes. _ Mas não descuidamos dos incentivos tradicionais: estamos sempre pesquisando para manter nossos salários alinhados com os melhores do mercado.
A estratégia tem apelo, especialmente a oferta de lazer.
_ Quando você trabalha com criatividade, sua cabeça fica a mil. Tem uma hora que é preciso dar uma pausa. Mas você ainda está a mil, então não quer tomar cafezinho, voltar pro mundo real. Você quer ação. Nada melhor do que uma partida de sinuca _ diz Greg Corbig, 26anos, designer do Open Table.
No Yelp, guia online de serviços, atrações e produtos que cobre 110 cidades do mundo, um andar inteiro dos nove ocupados pela empresa no histórico prédio PacBell é dedicado a uma cafeteria, um lounge e mesas de pingue-pongue.
_ Depois de trabalhar cinco horas direto, você precisa de uma válvula de escape para recarregar energia. Mas o trabalho nunca se afasta completamente, é na partida de pingue-pongue ou na socialização com o laptop no colo que o design se encontra com a engenharia e o marketing _ afirma Adam Gottlieb, de 24 anos, que trabalha no departamento de vendas da plataforma.
Nos ambientes do Yelp, os tijolos são aparentes, as tubulações de água, esgoto e fios correm à mostra e o pé direito dos andares é alto. A estética de galpão e garagem é a marca arquitetônica das firmas de alta tecnologia, das gigantes às startups, e cumpre uma função.
_ Numa indústria que tem a inovação como motor, os ambientes precisam lembrar que o negócio está permanentemente em construção. Os sofás, o clima de lounge, também têm objetivo, deixar os talentos relaxados, como se estivessem em casa, cada um buscando a melhor maneira de produzir. _ explica Kaeli Bainbridge, à frente da Operação de Pessoas da plataforma de discussão e comentários online Disqus, enquanto o chefe Daniel Ha, fundador da empresa, passa com uma cerveja na mão, vinda direto do freezer comunitário, a caminho de uma palestra que vai encerrar 12 horas de expediente.
Site: O Globo
Data: 18/03/2014
Hora: 07h
Seção: Tecnologia
Autor: Flávia Barbosa
Foto: Agência O Globo
Link: http://oglobo.globo.com/tecnologia/no-vale-do-silicio-empresas-usam-mimos-para-estimular-inovacao-11906294