No futuro, não teremos mais empresas de software. Discordo! 

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Tenho visto por aí muita gente dizendo que, no futuro, não teremos mais empresas de software. Discordo! Essa ideia, que me parece bastante simplista, ganhou força com o surgimento de ferramentas e plugins de IA que prometem automatizar partes do trabalho. Em alguns casos, isso chegou a influenciar decisões de investidores, que passaram a vender ações de empresas de software sob a suposição de que, em breve, todo mundo “fará” suas próprias soluções em vez de comprar produtos profissionais.

Um dos gatilhos recentes dessa narrativa foi o lançamento do plugin “Legal”, da Anthropic, para o Claude. O marketing sugeriu uma ruptura profunda no trabalho jurídico. Mas uma análise mais cuidadosa mostra algo bem menos revolucionário. O plugin apenas automatiza camadas superficiais do processo, como triagem, leitura inicial, padronização de documentos, agora empacotadas para knowledge workers. O trabalho estrutural, a responsabilidade jurídica, o risco regulatório e a integração com sistemas e decisões reais continuam exatamente onde sempre estiveram.

Esse tipo de reação é exagerado por vários motivos. Primeiro, sucesso ou hype no front-end da IA não significa que uma organização possa simplesmente substituir software especializado. Ferramentas que ajudam em tarefas pontuais, como gerar trechos de código, revisar texto, sugerir workflows, não substituem anos de engenharia, integração, governança e confiança operacional. Software profissional não é apenas lógica funcional. Envolve arquitetura, segurança, escalabilidade, suporte e manutenção. Essas camadas seguem fora do alcance das soluções genéricas de IA.

A queda do valor das ações também não reflete uma mudança estrutural na demanda por software, mas um fenômeno psicológico de mercado, de investidores tentando antecipar impactos de longo prazo sem dados concretos de receita, retenção ou adoção sustentável. Isso gera volatilidade de curto prazo, e não é uma invalidação dos fundamentos do setor.

As limitações atuais da IA generativa continuam as mesmas. Ela produz soluções baseadas em padrões conhecidos, muitas vezes incompletos ou incorretos, sem entendimento profundo de contexto de negócio, requisitos legais ou restrições de integração. O valor central do software corporativo não está em escrever código, mas em resolver problemas complexos de forma robusta, auditável e responsável.

Se existe um futuro consistente aqui, é um em que a IA complementa a engenharia de software, acelerando produtividade, automação e prototipagem, mas não elimina as empresas que constroem, operam e sustentam sistemas críticos. O “fim do software” soa muito mais como um conto de Wall Street do que como uma previsão fundamentada. A IA continuará usando software. Não o substituindo.

Cezar Taurion
Chief Strategy Officer Mobili Partners/ Founder & Chief Executive Officer (CEO) Ananque

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