Duas das mais importantes experiências em governança digital estão prestes a ser postas à prova. Elas constituem abordagens muito diferentes para o problema de como administrar sistemas distribuídos mundialmente que precisam satisfazer a muitos interesses distintos, frequentemente opostos.
O desfecho terá importância de longo prazo não apenas para as empresas que estão passando a depender da nova infraestrutura digital, mas para qualquer pessoa que viva uma grande parte de sua vida online.
Um teste começa na próxima semana, quando se espera que a Icann, que administra o sistema de endereços da internet, divulgue os termos para seu histórico divórcio do governo dos Estados Unidos. Desde quando Edward Snowden revelou a vigilância online generalizada, passou a ser politicamente insustentável, para os EUA, manter o controle dessa função.
É duvidoso se, algum dia, os EUA exerceriam sua única sanção remanescente aplicável à rede e abdicariam de sua autoridade para alocar endereços de IP. Isso provavelmente teria provocado o desmembramento da internet mundial. Mas a saída dos americanos sujeita a aprovação do Congresso produz um enigma: como deveria ser feita a gestão de um ativo mundial como esse?
A Icann surgiu com um complicado sistema de freios e contrapesos que envolve comitês consultivos e outras organizações representativas de vários grupos de interesse. Essa pode ser uma maneira de evitar uma apropriação hostil, por parte de governos não democráticos, visando subverter a internet aberta. Mas o risco é que, ao construir “firewalls” para impedir a intromissão por qualquer grupo, a Icann se transforme numa burocracia autoperpetuadora. Entretanto, não existe um modelo para estruturar uma agência supranacional como essa.
O segundo grande teste envolve um fenômeno muito mais recente na internet. Como uma rede distribuída para transações confiáveis sem interferência de instituições governamentais, o bitcoin tem sido uma experiência fascinante. Mas a moeda digital está enfrentando um momento decisivo.
Nesta semana, relatórios têm divulgado que o sistema está começando a se aproximar de um teto quanto ao número de transações que é capaz de gerenciar, gerando grandes atrasos nos tempos de confirmação de compensações [de operações]. Assolada por discussões entre facções conflitantes, a “comunidade” do bitcoin ainda não foi capaz de chegar a uma fórmula consensual sobre como atualizar a capacidade de “blockchain” o sistema contábil digital aberto no qual são registradas todas as transações.
À parte as muitas coisas que podem frustrar a utilização da moeda cibernética entre elas as ações de governos preocupados com que o bitcoin se torne a moeda predileta de terroristas e criminosos seu potencial continua a ser atraente. Capitalistas de risco, empreendedores e desenvolvedores de software seduzidos pelo bitcoin ainda o defendem como peça fundamental do que poderia tornarse uma internet do dinheiro.
A governança no mundo bitcoin é oposta ao que acontece na Icann. Em lugar de encontros de cúpula internacionais, infindáveis reuniões de comissões e acordos complicados, os usuários do bitcoin são movidos a rivalidades técnicas acirradas.
O futuro depende de saber se essas guerras entre facções conflitantes poderão superar os problemas com que se defronta a moeda. Em vez de uma abordagem consensual para atualizar a tecnologia de blockchain, os operadores na rede estão em um combate darwiniano para implementar uma solução que prevaleça sobre ideias concorrentes e conquiste apoio suficiente para tornarse um novo padrão.
A candidata mais recente é uma versão denominada Bitcoin Classic. Ela dobraria instantaneamente a capacidade de gerenciamento de transações na rede, suprimindo o risco de uma crise imediata. Embora apenas um quebragalho de curto prazo o blockchain provavelmente atingiria outro teto dentro de um ano isso ao menos mostraria que a confusa terra de ninguém do bitcoin pode levar a progressos.
O Bitcoin Classic é usado por cerca de 22% dos “nós” da rede bitcoin, e o número está crescendo rapidamente. Mas o Bitcoin Classic terá que agregar um apoio muito maior para que atraia uma adesão em massa.
Se os defensores do Bitcoin Classic estão certos, um “hard fork” obrigatório (uma derivação impositiva no protocolo do Bitcoin não compatível com versões anteriores) desse tipo representaria muito mais que uma correção técnica. Seria a primeira comprovação de um novo modelo de governança digital seguindo o modelo adotado em projetos de software de código aberto.
Há muitos argumentos segundos os quais esse “cada um por si” pode ser difícil de ser adaptado. Para início de conversa, sua viabilidade ainda não foi comprovada. Além disso, se uma rede como essa algum dia tornarse uma peçachave da infraestrutura digital mundial, nunca poderia ser deixada refém das rivalidades e da irresponsabilidade temerária que ainda ameaça descarrilar o bitcoin. Mas, na busca de maneiras para governar a infraestrutura digital mundial que envolve as instituições atualmente, o desfecho será de interesse mais que passageiro. (Tradução de Sergio Blum)
Site: Valor
Data: 04/03/2016
Hora: 5h
Seção: Empresas
Autor: Richard Waters – Financial Times
Foto: ——
Link: http://www.valor.com.br/empresas/4465832/mundo-digital-vai-enfrentar-testes-decisivos