Afinal, deveríamos ter mais mulheres em cargos executivos? Isso mudaria os resultados da economia e das empresas, em particular? Creio que ninguém, ou quase ninguém, se atreveria nos dias de hoje afirmar “que não precisamos de mais mulheres em cargos de gestão”. Ou “Que está bom do jeito que está e que as mulheres já conseguiram muito”. Mesmo se algumas pessoas, e não necessariamente homens, pensem assim, jamais admitiriam em público, pois seria “politicamente incorreto” ou mesmo uma forma verbal de discriminação.
Tudo começa com a participação da mulher na força de trabalho. Entre 22 países desenvolvidos, os USA estavam em 6º lugar em 1960, em termos da participação da mulher na força de trabalho e caíram para o 17º em 2010. Pesquisadores atribuem o fato à falta de políticas favoráveis à vida familiar como, por exemplo, a possibilidade de se trabalhar em tempo parcial, segundo Robert Waring, autor de Upside Down: The Paradoxes of Gender in the Twenty-first Century (veja Blog Carnival, greatplacetowork.com).
Também Angel Gurría, secretario geral da OECD, diz que “As mulheres são o recurso econômico mais subutilizado na economia mundial”. Outro estudo realizado pela Booz & Company, avaliando mais de 100 países (veja Harvard Business review April 2013) aponta que se mulheres fossem empregadas na mesma proporção de homens nos EUA, Japão e Egito, o PIB desses países seria 5%, 9% e 34% mais alto, respectivamente!
Creio que temos bastante evidências que algo precisa ser mudado
Jeff Klein, CEO da organização Working for Good e diretor da Conscious Capitalism (não deixe de ler Conscious Capitalism: Liberating the Heroic Spirit of Business, Mackey & Sisodia) nos mostra que a natureza do capitalismo está mudando e que também o trabalho está se tornando mais virtual e assíncrono, permitindo novas formas de flexibilidade.
Porém existe uma barreira importante. Segundo a professora Joan C. Williams da Universidade da Califórnia – se nada mudar para os homens nada mudará para as mulheres. O que isso quer dizer? Williams cunhou o termo “Estigma da Flexibilidade” a partir da observação que mulheres que adotam formas de trabalho com horários mais flexíveis são vistas sob a lente da maternidade, gerando atitudes discriminadoras.
Ou seja, são imediatamente associadas como menos competentes e menos comprometidas e os homens, por sua vez, como mais femininos e saindo do seu papel tradicional de provedor. Mas essas associações são veladas e pouco comentadas, apesar de reais.
Porém a pressão está aumentando. Não só com os “millenials” ou “geração Y”, onde o equilibro de vida é um valor importante, mas também com a tecnologia que propicia novas formas de colaboração e flexibilização do trabalho.
Mas, para voltar ao tema específico das mulheres na gestão, o que dizer então de Marissa Mayer, CEO da Yahoo que recentemente causou “frissons” na imprensa internacional com seu famoso e-mail “proibindo o trabalho remoto e exigindo que os colaboradores da Yahoo viessem ao escritório todos os dias. Seriam as mulheres mais conservadoras que os homens?
Quem esteve na Conferência 2013 do Great Place to Work en Los Angeles, pode ouvir em viva voz dela sua versão. Efetivamente, Mayer disse que estava construindo uma nova cultura na Yahoo, e que para isso, precisava das pessoas juntas, conversando, interagindo, criando novas atitudes. Isso não se pode fazer por e-mail, Facebook ou Skype.
O trabalho remoto não está proibido na empresa e, se for necessário, pode ser realizado. Mayer disse que entendia que as pessoas podem ser mais produtivas se trabalharem de suas casas, mas que são mais inovadoras e colaborativas se trabalham juntas.
Será que se fosse um homem sua decisão causaria tanto furor?
Bem, a boa notícia é que sabemos que nas melhores empresas para trabalhar as mulheres não são uma novidade e têm tratamento igual ao dos homens. Que também nessas empresas as possibilidades de ascensão estão igualmente disponíveis por merecimento e não gênero.
E que também se pode notar mundialmente que aumenta o número de empresas que se podem considerar como excelentes ambientes de trabalho. Só não vamos nos esquecer do “estigma da flexibilidade”. Agir sobre ele pode fazer a diferença.
(*) José Tolovi é CEO global do Great Place to Work®
Site: Computerworld
Data: 30/07/2013
Hora: 11h55
Seção: Especiais
Autor: José Tolovi
Link: http://computerworld.uol.com.br/especiais/2013/07/30/opiniao-mulheres-no-comando-ajudam-a-eliminar-o-estigma-da-flexibilidade/