O interesse das companhias brasileiras de tecnologia da informação (TI) em expandir-se no exterior não visa apenas acrescentar novas e potencialmente fartas fontes de receita. Também é um movimento defensivo.
“Nos últimos anos, com o crescimento da economia brasileira e a retração na Europa e nos Estados Unidos, muitos concorrentes estrangeiros vieram para cá”, diz Ricardo Couto, sócio da Exceda, de integração de tecnologia. Isso ocorreu em muitos segmentos de TI. A resposta dos grupos nacionais foi investir no exterior, para agregar conhecimentos que não estavam disponíveis no país e mostrar aos clientes, muitos deles também em expansão lá fora, que a companhia podia ser global. “Foi preciso blindar os clientes”, afirma Couto.
O resultado dessas ações foi a profissionalização dessas ofensivas externas. “Houve um aprendizado. Aquele modelo de colocar um executivo brasileiro no avião e dizer ‘vai lá e se vira’ não dá certo”, diz Marcelo Eduardo Sant’Anna, diretor executivo de mercado internacional da Totvs, fornecedora de software de gestão empresarial.
O risco, afirma Sant’Anna, é mandar um bom vendedor para o exterior, que acaba não conseguindo os mesmo resultados fora do país por desconhecer as regras locais. “É preciso preparar o profissional em relação a costumes, normas, jeito de fazer negócio”, diz o executivo.
A trajetória da Stefanini, de serviços de TI, mostra esse percurso. “Quando começamos o Antonio [Moreira, responsável pelos negócios da companhia na América do Norte] saiu do país em direção aos EUA só com um cartão de crédito”, afirma Marco Stefanini, presidente do grupo. A situação, hoje, é muito diferente. A mais recente investida da empresa é o investimento de US$ 1 milhão para montar um centro de serviços na cidade de Querétaro, no México. A unidade vai contar inicialmente com 200 funcionários para suporte técnico e desenvolvimento de sistemas para clientes na América Latina, excetuando o Brasil. “Até o fim do ano, podemos passar de 500 profissionais”, diz Marcelo Ciasca, que conduz as operações da Stefanini na América Latina.
Em alguns casos, a receita internacional já supera a do Brasil. Na WebRadar, que analisa dados dos clientes em tempo real, 60% da receita vem do exterior. No ano passado, a companhia encomendou um estudo à escola de negócios da Universidade da Califórnia em Los Angeles para saber como proceder nos EUA. O trabalho demorou seis meses e envolveu cinco consultores, que ajudaram a definir o tamanho da equipe ideal, o perfil dos profissionais e o volume de investimento, entre outros itens. Ao todo, foram 270 horas de entrevista. “Agora, vamos executar esse planejamento”, diz Adriano da Rocha Lima, presidente da WebRadar.
A empresa planeja fazer o mesmo na Europa, onde pretende instalar-se até o fim do ano, aproveitando que já tem um cliente em Portugal. O estudo, desta vez, ficará por conta da consultoria Analysys Mason.
A Módulo, de segurança digital, aumentou de um para três o número de escritórios internacionais no prazo de três anos. As operações diretas estão nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Índia. A receita internacional representou menos de 10% do faturamento total no ano passado, mas cresceu 50%, uma evolução maior que a das vendas totais, de 30%. Para este ano, a expectativa é manter o ritmo de crescimento no exterior, diz Sérgio Thompson-Flores, presidente da Módulo.
A Exceda, que já tinha operações na Argentina e no Chile, fechou uma aquisição no México no fim do ano, antecipando a compra. Paralelamente, a companhia espera colher os primeiros frutos da área de novos produtos que montou nos EUA.
As dificuldades para crescer no exterior variam, dependendo da área de atuação da empresa. A Módulo enfrenta restrições da legislação americana para vender tecnologia ao governo dos Estados Unidos. Para a WebRadar, que usa o conceito da computação em nuvem, o problema é a localização dos centros de dados. “Na Alemanha, por exemplo, os dados não podem cruzar a fronteira”, diz Lima. Para atuar no país, onde a WebRadar não está presente, é necessário contratar infraestrutura local de centro de dados.
A despeito das dificuldades, o avanço das companhias brasileiras consagra um modelo de internacionalização diferente do que se desenhava anos atrás, quando a Índia tornou-se uma fábrica de software sob encomenda para outros países, o chamado “off shore”, aproveitando a mão de obra barata disponível no país.
A princípio, a expectativa é que o Brasil pudesse concorrer com a Índia por contratos que exigem mão de obra massiva, mas não necessariamente sofisticada. O país, no entanto, nunca conseguiu tornar-se um competidor à altura, mesmo com movimentos para baratear a mão de obra e tornar mais flexíveis as relações de trabalho.
“Se tentarmos copiar a Índia não vamos chegar a lugar nenhum, porque não temos mão de obra barata”, diz Antônio Carlos Rego Gil, que até recentemente era presidente da Brasscom, uma associação do setor, e hoje é conselheiro convidado na organização.
A questão, afirma Benjamin Quadros, presidente da BRQ, não é só preço. “Os indianos fizeram um bom trabalho comercial, bloqueando os clientes estrangeiros”, afirma o empresário. A imagem do Brasil no mercado internacional de TI melhorou, mas é preciso alinhar as ações do governo com a iniciativa privada e discutir pontos como o barateamento dos centros de dados, diz Quadros.
Segundo dados da Brasscom e da consultoria IDC, o mercado brasileiro de TI movimentou US$ 123 bilhões em 2012 – o que o torna o 7º maior do mundo -, mas as exportações foram de apenas US$ 2,5 bilhões. Para 2022, a projeção é que os negócios somem US$ 253,5 bilhões, o que levaria o país para a 5ª posição global, com exportações de US$ 20 bilhões.
Para muitos, o melhor a fazer é concentrar-se em tecnologias nas quais o país já provou sua capacidade, e que o diferenciem da Índia. É o caso de softwares e serviços para agronegócios, instituições financeiras, petróleo e gás, além de sistemas como o usado pela Receita Federal no Imposto de Renda. (Colaborou Gustavo Brigatto, de São Paulo)
“Gringos” levam a TI brasileira ao exterior
Um time de executivos estrangeiros, que em muitos casos nem fala português, está ajudando grupos brasileiros de tecnologia da informação a ganhar espaço fora do Brasil. O interesse dessas companhias é principalmente acrescentar novas fontes de receita, mas é também um movimento defensivo, já que muitos concorrentes estrangeiros passaram a atuar no país nos últimos anos.
Um exemplo da nova face mais internacionalizada do setor é o da empresa de serviços de tecnologia Stefanini. No ano passado, cerca de 40% do faturamento bruto total, de R$ 2,11 bilhões, veio do exterior. Dos 17 mil funcionários, quase 7 mil são estrangeiros e vivem fora do país. Na maioria desses escritórios, os brasileiros são raros. “Entre os dois mil funcionários que temos na Europa, só um é brasileiro”, diz o português Manuel Frade, chefe das operações europeias da Stefanini.
Durante muito tempo, as companhias nacionais se preocuparam com a falta de uma “marca Brasil”, que identificasse o país no exterior a uma imagem de qualidade tecnológica, como fez a Índia. Os executivos estrangeiros têm ensinado, no entanto, que isso não é tão preponderante como a capacidade de entregar o que foi prometido – tenha a empresa a nacionalidade que tiver.
Site: Valor Econômico
Data: 21/03/2014
Hora: 05h
Seção: Empresas
Autor: João Luiz Rosa
Link: http://www.valor.com.br/empresas/3488436/movimento-tem-carater-defensivo