
A Baixada Fluminense dá mais um passo no reposicionamento no mapa da inovação do estado do Rio de Janeiro. Esse movimento ganhou forma no 1º Encontro Empresarial da Regional Baixada do TI Rio, realizado no campus do IFRJ em São João de Meriti, reunindo empresários, estudantes, lideranças públicas e entidades em torno de um mesmo eixo: desenvolvimento, tecnologia e conexão.
Ao longo do dia, o evento promoveu palestras, trocas e networking qualificado, criando um ambiente estratégico para fortalecer o ecossistema de tecnologia e negócios da região, conectando diferentes atores que, historicamente, atuam de forma dispersa.
Um território estratégico que luta para mostrar sua potência
Apesar de estar inserida na região metropolitana, a Baixada ainda carrega um estigma que não corresponde à sua realidade. Um paradoxo é difícil de ignorar. A Baixada Fluminense é uma das regiões de maior densidade demográfica do Brasil. São João de Meriti, por exemplo, figura entre os municípios mais densos do país, com mais de 13 mil habitantes por quilômetro quadrado. É um território de enorme massa humana, econômica e produtiva, que historicamente foi alvo de uma estigmatização negativa, sendo tratado no imaginário de muitos como se ficasse a “léguas de distância” de qualquer grande centro. Como destacou Margareth Kelly Nascimento Souza, gerente regional do Sebrae, esse cenário é também resultado de um processo histórico de apagamento que simplesmente não reflete a realidade econômica e produtiva do território.
Esse contraste se evidencia nos números e na dinâmica local. Apenas em São João de Meriti, são mais de 43 mil negócios ativos, dos quais cerca de mil são grandes empresas. O dado revela uma base econômica fortemente sustentada por micro e pequenos empreendedores, que operam em rede, ainda que muitas vezes sem visibilidade proporcional ao seu impacto.
Margareth reforçou que o desafio passa também por uma mudança de narrativa e de posicionamento.
“Precisamos demonstrar e contar a nossa história a partir do nosso olhar e daquilo que nós temos aqui”, disse.
Ela também foi direta ao explicar sua forma de atuação: “Eu não trabalho para as grandes empresas. Eu trabalho com as grandes empresas.” A distinção não é semântica. Dentro de cada grande operação existe uma série de demandas que, quando identificadas e mobilizadas, se traduzem em oportunidades concretas para os pequenos empreendedores locais. Uma grande empresa, ao ser “sacudida”, libera serviços, fornecimentos e soluções que os negócios do entorno têm plenas condições de absorver e entregar.
“É sobre fortalecer um ambiente com inovação aplicada no território, criando conexões entre educação, mercado e inovação. Esse é o caminho para gerar desenvolvimento de forma sustentável”, completou.
A leitura reforça que a Baixada não é um território vazio de inovação, mas um ecossistema em formação que precisa ser articulado, visibilizado e conectado para atingir todo o seu potencial.
Logística, tecnologia e um novo eixo de crescimento – A dinâmica econômica da Baixada vem se transformando rapidamente. São João de Meriti se consolida como um importante polo logístico, com a presença de grandes operações globais, o que vem atraindo também empresas ligadas à tecnologia e infraestrutura digital.
Esse movimento já se reflete no mercado de trabalho. Em 2025, o município registrou cerca de 25 mil novos empregos, indicando um ciclo de crescimento consistente, alinhado a transformações estruturais da economia local. Ao mesmo tempo, observa-se um direcionamento crescente na formação de profissionais, acompanhando as demandas de um ambiente produtivo cada vez mais tecnológico.
O secretário de Trabalho e Renda de São João de Meriti, Bruno Corrêa, destacou a importância desse momento para a cidade e para a região, chamando atenção para o papel estratégico da infraestrutura tecnológica nesse processo.
“São João de Meriti vive hoje um grande polo logístico, com operações das maiores empresas do mundo – Mercado Livre, Shopee, Amazon e Jet Express – estão todas aqui, no complexo Prologis, e isso também está atraindo empresas de tecnologia e data centers. O maior data center da América Latina já opera na cidade, o seu efeito foi a segunda maior do setor instalou-se no entorno logo em seguida. Esse debate é fundamental para que a gente pense o futuro, prepare mão de obra e acompanhe esse novo ciclo de desenvolvimento”, afirmou.
Conectar para desenvolver

A mesa de abertura do encontro reuniu representantes estratégicos do poder público, da iniciativa privada e de instituições locais, evidenciando a construção de um ecossistema integrado. Participaram Alberto Blois, presidente do TI Rio; professor Rodney Albuquerque, diretor-geral do IFRJ e diretor do TI Rio; Bruno Corrêa, secretário de Trabalho e Renda da Prefeitura de São João de Meriti; Fátima Cristina, da ACEME; Luís Jairo de Souza Junior, CEO do Grupo Atlas Rio; Margareth Kelly Nascimento Souza, do Sebrae; e Rogério Santana, da InEmpSJM.
Para o professor Rodney Albuquerque, diretor-geral do IFRJ campus São João de Meriti e diretor do TI Rio, o encontro simboliza um movimento concreto de reposicionamento da Baixada Fluminense no cenário tecnológico do estado, ao aproximar atores que historicamente atuaram de forma desconectada.
“Quero destacar a coragem do TI Rio de avançar nesse processo de interiorização e de se fazer presente nesse território, fomentando o desenvolvimento local. Isso tem um valor enorme”, afirmou.
Rodney reforçou que a região já possui uma base consistente de tecnologia e negócios, mas que ainda carece de maior articulação e visibilidade. Para ele, o potencial existe – o que faltava era ampliar a conexão.
“A Baixada tem tecnologia, tem informática, tem computação e tem negócios acontecendo. O que vemos aqui hoje deixa isso muito claro. Esse encontro mostra o quanto é importante reunir empresas, estudantes e instituições num ambiente de troca e de construção conjunta”, destacou.
O avanço mais significativo, segundo ele, está justamente na aproximação entre quem forma, quem produz e quem empreende no território. Três forças que, quando alinhadas, transformam potencial em desenvolvimento concreto.
“Estamos aproximando quem está no dia a dia construindo a sociedade da Baixada Fluminense, seja nas empresas, nas salas de aula ou nos empreendimentos locais. Essa conexão é o que permite transformar potencial em desenvolvimento real”, disse.
O professor também não escondeu o orgulho pelo significado simbólico do evento acontecer na própria região.
“Para nós, é uma grande satisfação receber e acolher esse primeiro encontro da Regional Baixada. Como baixadense, como iritiense, é motivo de orgulho ver esse movimento acontecendo aqui. A presença do TI Rio no território é fundamental para estruturar esse ecossistema e dar visibilidade ao que já existe”, completou.
A realização do evento foi articulada pelo TI Rio junto ao IFRJ e contou com a participação do Sebrae, Rotary Club de São João de Meriti, Lions São João de Meriti, ACEME, ALASJM, Atlas Rio, InEmpSJM e a Secretaria de Trabalho e Renda da Prefeitura de São João de Meriti.
Tecnologia como vetor econômico e social – O impacto do encontro ultrapassa o ambiente empresarial e alcança também a dimensão social. A integração entre empresas, estudantes e instituições cria oportunidades concretas de inserção profissional e desenvolvimento de carreira.
Ricardo Gruber, CEO da RGBtech e diretor do TI Rio, destacou o papel dos jovens presentes no evento. Segundo ele, além da troca com empresas, o encontro permite que estudantes tenham contato direto com o mercado e encontrem caminhos possíveis dentro da tecnologia. Em um ambiente com forte presença de jovens, essa conexão se torna ainda mais relevante, ao aproximar formação e oportunidade de forma prática.
Um movimento contínuo de desenvolvimento – Para Alberto Blois, presidente do TI Rio, o encontro representa um passo relevante dentro de um movimento mais amplo. Segundo ele, a iniciativa reforça a necessidade de desenvolver profissionais e integrar cada vez mais a Baixada ao restante do estado.
Esse é um processo importante na potencialização do desenvolvimento tecnológico em cada território do estado do Rio de Janeiro, conectando vocações locais a uma estratégia mais ampla de crescimento.
Inteligência Setorial
Entre os aspectos levantados, ganha destaque o Mapeamento do Setor de TI do Estado do Rio de Janeiro, pesquisa conduzida pelo TI Rio, em parceria com a Softex e Riosoft. O estudo evidencia um cenário ainda concentrado, com mais de 70% das empresas de tecnologia localizadas na capital, ao mesmo tempo em que aponta um processo em curso de interiorização do setor.
Nesse contexto, regiões como a Baixada Fluminense aparecem ainda de forma pulverizada nos dados, o que não indica ausência de atividade, mas sim um desafio de visibilidade e integração do ecossistema local. Ao mesmo tempo, a densidade econômica e a base empreendedora da região reforçam seu potencial para se consolidar como um dos polos tecnológicos do estado.
Ainda no encontro, Alberto Blois, presidente do TI Rio, ase comprometeu em levar à Baixada uma apresentação específica com o recorte regional dos dados. “A gente já fez isso em outras regionais. Vamos fazer aqui na Baixada. A Baixada é pujante no desenvolvimento tecnológico, com suas empresas, com sua economia, com seus profissionais”, afirmou. Ele também reforçou o caráter dinâmico do levantamento. “O mapeamento não para, ele é constante. A gente fez o lançamento em 2025, mas em 2026 já teremos atualizações dos dados”, disse.
O encontro se insere em um movimento mais amplo do TI Rio de conexão e construção de futuro. A Baixada avança no seu reposicionamento e se afirma, cada vez mais, não como região que aguarda ser incluída no mapa da inovação mas como território que já está, há muito tempo, construindo o seu próprio caminho.
Texto: Bruno Nasser