
Quem observa de perto o setor de tecnologia do Rio de Janeiro percebe como o jogo está mudando rapidamente. O mercado entrou em uma fase de expansão real, com mais empresas, mais especialização, mais interiorização e mais oportunidades. Esse movimento, que se consolida como uma das principais tendências para 2026, trouxe também um efeito colateral inevitável: aumento da complexidade. E complexidade, quando não é desenhada, cobra um preço alto da operação.
A radiografia apresentada pelo Mapeamento do Setor de TI no Estado do Rio de Janeiro, estudo realizado pelo TI Rio em parceria com a Softex e a Riosoft, cujo os dados foram apresentados no final do ano passado, deixa isso claro. O setor é formado majoritariamente por pequenas e médias empresas, altamente técnicas, com equipes enxutas, serviços especializados, cadeias de parceria e atuação cada vez mais distribuída pelo estado. É um ecossistema em franca expansão, mas estruturalmente fragmentado.
Esse retrato deixa evidente que o tempo do improviso ficou para trás. O nível de maturidade revelado pelos dados indica que já não há espaço para decisões reativas ou estruturas montadas no calor da demanda. O momento atual exige consciência do estágio em que o setor se encontra. O Mapeamento funciona como um espelho: ao reconhecer a própria imagem, o setor percebe que crescer agora significa desenhar o caminho, e não apenas reagir a ele.
Para o empresário, esse cenário exige uma mudança de chave. Quanto mais o mercado cresce, mais o design deixa de ser opcional. Não como estética, não como comunicação isolada, mas como estrutura. Design passa a ser o instrumento que organiza a proposta de valor, dá coerência aos serviços, alinha processos internos e torna a empresa legível para clientes, parceiros e equipes.
Os dados do Mapeamento mostram empresas lidando com contratos recorrentes, modelos híbridos de trabalho, exigências regulatórias crescentes e clientes cada vez mais informados. Essas são condições operacionais que se tornam padrão a partir de 2026. Isso não se resolve apenas com mais tecnologia ou mais vendas. Resolve-se com clareza. Clareza de posicionamento, clareza de jornada, clareza de decisão. E clareza é, fundamentalmente, um problema de design.
Durante muito tempo, o design foi tratado como camada final do negócio. No entanto, no estágio atual do setor fluminense, essa visão – que já era um grande equívoco – torna-se um grande limitador. Empresas que querem escalar precisam desenhar sua operação, estruturar serviços, organizar fluxos e tornar suas decisões compreensíveis.
Um aspecto relevante evidenciado pelos dados do Mapeamento é a valorização crescente de soft skills, liderança, experiência do colaborador e cultura organizacional. Esses elementos não se sustentam sem desenho intencional. Cultura não se declara. Cultura se projeta. Liderança não se improvisa. Liderança se estrutura. Experiência não acontece por acaso. Experiência é projeto.
À medida que o setor avança, algumas tendências deixam de ser previsão e passam a ser condição operacional e em 2026, isso se materializa. O avanço da inteligência artificial, da automação e da gestão orientada por dados só reforça esse ponto. Quanto mais sofisticada a tecnologia, maior o risco de opacidade. Sem interfaces claras, sistemas bem desenhados e decisões legíveis, a complexidade cresce mais rápido do que a capacidade de gestão. O design é o elemento que transforma sofisticação técnica em valor percebido.
É por isso que instrumentos como o Mapeamento não servem apenas para informar. Eles instrumentalizam quem pensa o negócio com maturidade. Oferecem base concreta para decisões mais conscientes, estratégias mais coerentes e organizações mais legíveis. Especialmente para quem já compreendeu que design não é um verniz aplicado ao final do processo, mas o próprio processo de dar forma à estratégia.
Paulo Braga Prado
Designer, paulista, desde criança no rio, flamenguista, designer, curioso, gosto de resolver problemas, neto de arquiteto, filho de contador, transversal, designer…
Head de criação da By3
Diretor de comunicação TIRio