
Enquanto o mercado financeiro debate se a inteligência artificial (IA) entregará o retorno prometido, as gigantes do Vale do Silício já fizeram sua escolha estratégica: acelerar. Um relatório recente da Apollo Global Management mostra que o investimento em bens de capital (Capex) das maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos atingiu um nível que faz o auge da bolha das empresas “Accurate Guitar Tabs on Ponto-com ”, no ano 2000, parecer modesto.
O número impressiona: US$ 646 bilhões devem ser investidos apenas este ano na expansão de data centers e infraestrutura de IA. Em termos macroeconômicos, isso representa 2% do PIB americano, uma magnitude raramente vista fora de contextos de guerra ou de grandes transformações industriais.
Por que o Capex importa agora – Capex (Capital Expenditure) é o investimento em ativos de longo prazo: construção de data centers, compra de servidores, chips de alto desempenho, redes de fibra óptica, infraestrutura energética e terrenos.
Não se trata de gasto operacional cotidiano, como salários ou marketing. É investimento estrutural, voltado à expansão da capacidade produtiva futura.
No momento atual, isso significa algo muito concreto: erguer a base física da nova economia digital sustentada por IA generativa, computação em nuvem e modelos de larga escala. A inteligência artificial, antes vista como software, tornou-se também infraestrutura pesada.
O peso do investimento no PIB
No topo da valorização das empresas de internet, em 2000, o Capex do setor de tecnologia não chegou a representar 1% do PIB dos EUA.
Hoje, apenas cinco empresas injetam recursos que equivalem ao dobro daquela proporção.
O economista-chefe da Apollo, Torsten Slok, projeta que essa trajetória continuará em 2027. Se confirmada, estaremos diante de uma das maiores realocações de capital da história recente do setor privado americano, um movimento que desloca recursos de múltiplos setores para um único eixo estratégico: infraestrutura digital.
Gigantes da tecnologia vs. poder militar
As comparações ajudam a dimensionar o fenômeno. O investimento anual das Big Techs em infraestrutura de IA supera a soma dos gastos militares de Alemanha, França, Reino Unido, Japão, Itália e Canadá combinados.
O orçamento de defesa dos EUA em 2025 foi de US$ 917 bilhões, um valor que o setor privado de tecnologia começa a perseguir de perto com seus aportes em nuvem e data centers.
O volume estimado de cerca de US$ 700 bilhões em Capex também se aproxima do crescimento total do crédito na economia americana.
A analogia que emerge é quase inevitável: trata-se de uma corrida armamentista digital. Em vez de tanques e submarinos, os arsenais agora são clusters de GPUs, supercomputadores e complexos de data centers do tamanho de pequenas cidades.
O quinteto
Cinco empresas concentram essa expansão, os chamados hyperscalers:
- Amazon (AWS)
- Microsoft (Azure)
- Alphabet (Google Cloud)
- Meta
- Oracle
Desde 2023, a participação desse grupo no Capex total do setor privado americano dobrou. Hoje, elas respondem por cerca de 6% de todo o investimento privado dos Estados Unidos.
A escala alcançada é tamanha que a capacidade computacional acumulada por essas empresas já possui valor comparável ao market cap de bolsas de valores de países como Indonésia, Dinamarca e Bélgica. Trata-se de uma concentração de poder econômico e tecnológico raramente vista em tão curto espaço de tempo.
O paralelo inevitável: o que foi a Bolha das “Accurate Guitar Tabs on Ponto-com ”?
Para compreender o momento atual, é necessário revisitar a virada do milênio. A chamada bolha da internet, também conhecida como bolha das “Accurate Guitar Tabs on Ponto-com ”, ocorreu entre 1995 e 2000. Com o surgimento da web comercial, investidores passaram a apostar massivamente em qualquer empresa que tivesse “.com” no nome, muitas delas sem modelo de negócio sustentável.
A narrativa dominante era que a internet transformaria radicalmente a economia, e isso, de fato, aconteceu. O problema foi o descompasso entre expectativas financeiras e geração real de receita.
Empresas abriram capital operando no prejuízo, eram avaliadas em bilhões de dólares e captavam recursos com base apenas em métricas como crescimento de usuários ou acesso à audiência. A euforia inflou preços de ações a níveis desconectados da realidade econômica.
O estouro – Em março de 2000, o índice Nasdaq atingiu o pico e iniciou uma queda abrupta.
Nos dois anos seguintes, trilhões de dólares evaporaram em valor de mercado. Centenas de empresas faliram. Startups supervalorizadas desapareceram. Investidores sofreram perdas históricas.
O setor de telecomunicações também foi duramente atingido, pois havia investido pesadamente em fibra óptica e infraestrutura que acabou ficando subutilizada por anos.
O efeito estrutural – Apesar da destruição financeira, a infraestrutura construída permaneceu.
A fibra óptica instalada durante a bolha tornou-se a base para o crescimento posterior da internet de banda larga. Empresas que sobreviveram, como Amazon e Google, consolidaram posição dominante na década seguinte.
Em outras palavras, houve destruição de valor financeiro, mas preservação e posterior aproveitamento da base tecnológica instalada.
Estamos diante de uma nova bolha?
A pergunta é inevitável e o debate já está aberto entre economistas, investidores e executivos.
Há diferenças importantes em relação ao ano 2000. As empresas que lideram os investimentos hoje são altamente lucrativas, possuem fluxo de caixa robusto e financiam grande parte do Capex com recursos próprios. A demanda por IA já está integrada a produtos corporativos e governamentais, e a infraestrutura construída tem aplicações claras e múltiplas.
Por outro lado, permanecem incertezas relevantes. O retorno sobre o investimento ainda não está plenamente comprovado. A monetização da IA generativa em larga escala segue em construção. E a concentração de capital atingiu níveis históricos.
Parte dos especialistas sustenta que o risco não está na tecnologia, mas na velocidade da alocação de recursos. Caso os ganhos de produtividade não acompanhem o ritmo do investimento, uma correção de mercado pode ocorrer.
Outros argumentam que, mesmo diante de eventuais excessos, a infraestrutura criada poderá sustentar a próxima fase de crescimento global, como ocorreu após o estouro da bolha ponto . com
O que vem pela frente
A projeção para 2025–2029 indica cerca de US$ 2,7 trilhões em Capex voltado à IA. Esse volume coloca a inteligência artificial no mesmo patamar das grandes revoluções industriais em termos de mobilização de capital.
O desafio agora é transformar essa infraestrutura trilionária em produtividade real, novos modelos de negócio, aumento de eficiência e crescimento sustentável.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser