Lideranças traduzem novo perfil empresarial

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Uma fabrica biscoitos com receita de família, outra produz sabão ecologicamente correto e a terceira faz da traíra um peixe cobiçado e rentável. Rosângela de Melo, Regina Célia de Oliveira e Maria de Fátima Barbosa são as vencedoras da 10ª edição do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, respectivamente, nas categorias pequenos negócios, microempreendedora individual e produtora rural. A cerimônia, que aconteceu na semana passada em Brasília, na sede do Sebrae, traduziu na história de cada uma das 66 finalistas o novo perfil do universo empresarial brasileiros. As mulheres estão à frente de 52% de negócios com menos de quatro anos de funcionamento e respondem por 30% das 8,5 milhões de micro e pequenas empresas em operação no país. Comprovou, na prática, o que as pesquisas do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2013 já revelavam – que 66% das mulheres iniciam uma empresa após identificar uma oportunidade de mercado.

“Elas já não empreendem mais por necessidade, apenas para completar a renda da família. Pelo contrário, transformam ideias em negócios rentáveis por meio de uma gestão mais afinada, pela boa relação com a equipe, disposição e ousadia para correr riscos e melhor formação educacional e profissional”, afirma Luiz Barretto, presidente do Sebrae. “É com essa receita que microempreendedoras individuais, donas de pequenos negócios e produtoras rurais estão conquistando, a cada ano, maior espaço no mercado.”

Nascida em Natal (RN), Rosângela de Melo tem fala mansa e postura discreta, mas se agiganta quando desafiada. E foi justamente a negativa de um trabalho em uma padaria em sua cidade natal que a levou literalmente a colocar a mão na massa. Com uma receita de família, começou em 1998 a produzir raivinhas, biscoitos à base de polvilho. Passou dois anos na informalidade até que, em 2001, com as encomendas crescendo, abriu a Produtos Regionais, marca hoje presente nas principais redes de supermercados do Rio Grande do Norte, distribuída em 40 municípios, com uma produção diária de 2.600 unidades.

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Um dos diferenciais da empresa é a forma como são produzidos, com características artesanais. Como não tinha dinheiro para comprar uma máquina industrial pingadeira – os biscoitos eram feitos com ajuda de sacos de confeiteiro – ela desenhou um protótipo e contratou um mecânico para construir a engenhoca que imitava uma máquina portátil, com capacidade para produção de 40 tipos de biscoitos. A inovação que é usada até hoje na fábrica resultou não só em um processo que dispensa manutenção e energia elétrica, mas também atribui características únicas à marca. “Propositalmente, os bicos dos biscoitos não têm um padrão, o que torna um produto diferente do outro”, afirma. “No início foi difícil, tive de dispensar pessoas, já que a máquina faz o trabalho de quatro funcionários. Sem ela fabricávamos 600 unidades/dia, com ela 2.600. Faz muita diferença.”

Disposta a atingir os 167 municípios do Estado e ultrapassar fronteiras, Rosângela tem um projeto piloto de quiosque para a cidade de Natal, com a proposta de que a capital seja reconhecida não apenas pelo turismo, mas também por sua rica culinária. “Tenho trabalhado junto ao setor hoteleiro para que nossos biscoitos substituam os industrializados”, conta. “Eu chego lá.”

Formada em publicidade, Regina Célia Oliveira não titubeou em ganhar a vida de uma forma bem diferente do que sonhara nos bancos da faculdade. Em 2010, começou a produzir sabão em casa com a proposta de economizar na compra de produtos de limpeza. Batizado Sabão Lele, a empresa faz a coleta de três resíduos na comunidade de Olaria, em Vila Velha, ES – gordura saturada, caixa de leite e garrafa pet. Quando o volume de gordura excede o necessário para a fabricação do sabão, uma empresa terceirizada recolhe o material para a produção de biodiesel. Ao todo, foram gerados 1.360 litros de combustível.

Um dos diferenciais do sabão produzido por Regina Célia é o acréscimo de álcool (etanol), que garante uma limpeza mais profunda, além do uso de fragrâncias com matérias-primas naturais. O faturamento ainda é muito pequeno, cerca de R$ 13 mil por ano. O próximo passo será buscar um investidor para construir uma fábrica de verdade, já que hoje o sabão é produzido no quintal da casa da empresária, que transformou a sala em escritório de vendas. “Tenho orgulho de dizer que quebrei o preconceito de produzir algo a partir de resíduos indo para os jornais e a TV ensinar as pessoas a fazer sabão de forma consciente, protegendo o meio ambiente”, revela. “O prêmio vai abrir portas e, quem sabe, incentivar outras mulheres a trilhar esse caminho.”

A vencedora na categoria produtora rural é neta, filha, mulher e mãe de pescador. Nascida na Paraíba, Maria de Fátima Mota Barbosa, aprendeu que o mar tem seus segredos e pode ser uma excelente fonte de renda, desde que respeitado. Ao constatar a diminuição no consumo de peixe em Sumé, a técnica em enfermagem identificou uma oportunidade.

Após alguns estudos, muita tentativa e erro, ela criou uma técnica de retirada de espinhos da traíra. Com a ajuda da Universidade da Paraíba, conseguiu assegurar a retirada de 95% das espinhas. A inovação ajudou a empresária a comercializar o peixe, aumentando a venda dos produtores e conquistando clientes diversificados, como restaurantes, bares e escolas.
Maria de Fátima organizou oficinas de qualificação, que resultaram em grupos produtivos, formados por mais de 30 mulheres das cidades de Sumé e Camalaú, que se dedicam à produção de pescado de água doce. “Minha maior conquista é mostrar às pessoas que tudo pode ser transformado e melhorado, mesmo o que por anos foi considerado objeto de descarte.”

Ascensão feminina é realidade em todas as regiões

Criado em 2004 com o objetivo de valorizar e reconhecer a presença feminina nos pequenos negócios, o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios acompanhou na última década as mudanças sofridas pela economia e pela ascensão das novas classes sociais. Nesta década, o número de mulheres que comanda um negócio próprio cresceu 21,4% e hoje, a cada dez empresas abertas, três são lideradas por elas. A nova realidade não é uma exclusividade das regiões Sul e Sudeste. Nesse período, a taxa de crescimento de mulheres empreendedoras na região Norte foi de 80% e no Centro-Oeste de 43%.

Em 2013, das 6.987 inscritas, 3,46% pertenciam ao agronegócio; 49,33% ao comércio, 9,35% à indústria, 37,66% a serviços e 0,20% a serviços de educação. Os números, segundo Luiz Barretto, presidente do Sebrae, confirmam a diversidade de atuação das mulheres que antes estavam à frente de negócios muito específicos para o perfil feminino como salões de beleza e oficinas de costura, por exemplo. “Outra mudança importante é que hoje 66% delas empreendem por oportunidade e não mais por necessidade”, declara Barretto. Isto é, grande parte vê o empreendedorismo como uma opção de emprego que vai além da carreira tradicional em uma empresa pública ou privada.

“As candidatas se mostram cada vez mais maduras e preocupadas em adotar práticas de gestão que garantam a perenidade do negócio”, afirma Francisco Teixeira, coordenador de Projetos da Fundação Nacional da Qualidade. “Elas estão investindo mais em capacitação, gestão de pessoas, no relacionamento com o cliente, bem como estão mais atentas às questões de responsabilidade social.”

Realizado em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), a Federação das Associações das Mulheres de Negócios Profissionais do Brasil (BPW) e a Fundação Nacional de Qualidade (FNQ), o prêmio reuniu 6.987 inscrições em 2013, somando na década mais de 30 mil participações. Podem se candidatar ao prêmio empreendedoras com mais de um ano de atividade fiscal, mais de 18 anos e que não ultrapassem o faturamento anual de R$ 3,6 milhões.

Ao longo do tempo, a premiação sofreu mudanças. Em 2005 foram criadas duas categorias: pequenos negócios e negócios coletivos. Em 2096, firmou-se a parceria com a FNQ, afinando a criação de critérios de gestão para avaliar os negócios apresentados. Em 2013, a categoria negócios coletivos foi extinta cedendo lugar a duas novas premiações: microeempreendedora individual e produtora rural. Entre as inscritas, 39,39% faturam entre R$ 360 mil e R$ 2,4 milhões.

A faixa etária das empreendedoras também surpreende. Entre as 6.987 participantes, 22,48% têm mais de 50 anos; 64,56% entre 30 e 49 anos e apenas 12,95% têm até 29 anos.

Em 2013, além da campeã em cada categoria, foram premiadas, também, Thaís Fernandes de Araújo, responsável pela criação de um site de vendas de presentes customizados (Troféu Prata MEI); Raquel Aparecida da Cruz, instrutora de circo (Troféu Bronze MEI); Maria de Lourdes Secchin, cafeicultora (Troféu Prata Produtora Rural); Deborah Costa Gaiotto, produtora de hortaliças, ervas aromáticas e flores comestíveis (Troféu Bronze Produtora Rural); Maribel Emília Gaio, dona de laboratório de análises clínicas (Troféu Prata Pequenos Negócios) e Glaucineide Crivilin Del Caro, dona de lojas de decoração de interiores (Troféu Bronze Pequenos Negócios).

Site: Valor Econômico
Data: 28/02/2014
Hora: 05h
Seção: Brasil
Autor: Katia Simões
Foto: Divulgação/ Valor Econômico
Link: http://www.valor.com.br/brasil/3446980/liderancas-traduzem-novo-perfil-empresarial

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