
A expansão acelerada da inteligência artificial começou a provocar uma mudança estrutural dentro do setor global de tecnologia. Enquanto empresas ligadas à infraestrutura física da IA acumulam forte valorização no mercado, companhias tradicionais de software enfrentam perdas expressivas e passam a conviver com dúvidas crescentes sobre seus modelos de negócio.
Levantamento da Morningstar, plataforma de dados e investimentos, mostra que ações de empresas fornecedoras de infraestrutura para IA, especialmente fabricantes de semicondutores e memória, registraram alta média próxima de 90% em 2026. Em sentido oposto, empresas de software acumulam perdas que chegam a 40%, refletindo o receio do mercado sobre o impacto da inteligência artificial generativa na indústria de software como serviço (SaaS).
O movimento sinaliza uma reorganização importante na lógica de geração de valor do setor de tecnologia. Durante mais de duas décadas, plataformas de software dominaram o mercado digital com modelos baseados em assinaturas, automação corporativa e serviços em nuvem. Agora, parte relevante desse valor começa a migrar para a infraestrutura necessária para sustentar os modelos de inteligência artificial.
Infraestrutura vira centro da corrida tecnológica
A leitura predominante entre investidores e analistas é que a inteligência artificial generativa exige uma estrutura computacional muito mais robusta do que os ciclos tecnológicos anteriores. Isso inclui chips avançados, servidores, módulos de memória, armazenamento e data centers capazes de suportar grandes volumes de processamento.
Segundo a Morningstar, a diferença entre os melhores e os piores desempenhos do setor de tecnologia atingiu 133 pontos percentuais neste ano, uma das maiores dispersões registradas nos últimos ciclos do mercado. No topo da valorização aparecem quase exclusivamente empresas ligadas ao hardware e à infraestrutura. A Sandisk acumulou valorização superior a 500% no período analisado, enquanto a Intel ultrapassou 225%.
O cenário também impulsiona gigantes diretamente associadas à cadeia global da IA, como Nvidia, TSMC e ASML, beneficiadas pelo crescimento exponencial da demanda por capacidade computacional. Analistas do Morgan Stanley estimam que operadores de data centers deverão investir cerca de US$ 2 trilhões entre 2024 e 2027 para ampliar estruturas voltadas à inteligência artificial.
Essa movimentação ajuda a consolidar uma nova hierarquia tecnológica, na qual a infraestrutura deixa de ser apenas suporte operacional e passa a ocupar posição estratégica dentro da economia digital.
Software enfrenta pressão e necessidade de reinvenção
O avanço da IA também começa a pressionar diretamente empresas de software. Entre os principais fatores apontados pelo mercado está a redução das barreiras competitivas. Modelos generativos conseguem executar tarefas que antes dependiam de múltiplos sistemas especializados, diminuindo parte da diferenciação construída historicamente pelas plataformas SaaS.
Além disso, cresce entre empresas clientes o questionamento sobre a necessidade de manter diversas assinaturas de softwares quando sistemas baseados em IA conseguem centralizar funções antes distribuídas em diferentes aplicações corporativas.
Outro ponto de pressão está no custo de adaptação. Incorporar inteligência artificial aos produtos exige investimentos pesados em computação, engenharia e treinamento de modelos, afetando margens historicamente elevadas do setor de software.
Apesar disso, especialistas avaliam que o cenário não representa necessariamente o fim das empresas de software, mas sim uma transição profunda no modelo do setor. Companhias capazes de integrar IA de forma nativa aos seus produtos ainda tendem a preservar relevância e competitividade no novo ciclo tecnológico.
A Microsoft é frequentemente citada como exemplo desse movimento. Mesmo registrando queda em suas ações ao longo do ano, a companhia superou expectativas de receita impulsionada justamente pela integração de soluções baseadas em inteligência artificial.
Um novo ciclo para a economia digital
A aceleração da inteligência artificial indica que o setor de tecnologia atravessa uma das mudanças mais profundas desde a consolidação da internet e da computação em nuvem. O atual ciclo sugere uma transição na qual empresas precisarão revisar estratégias, estruturas de custos e modelos de monetização para continuar competitivas.
Mais do que uma simples substituição tecnológica, o avanço da IA parece inaugurar uma nova dinâmica de mercado, marcada por maior dependência de infraestrutura computacional, pressão por produtividade e integração cada vez mais intensa entre software, dados e capacidade de processamento.
Para investidores e empresas, o desafio agora deixa de ser apenas acompanhar o crescimento da inteligência artificial e passa a ser identificar quais organizações conseguirão se adaptar antes que a nova lógica do mercado se consolide.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser