
A Amazon já anunciou oficialmente o corte de cerca de 14 mil funcionários corporativos, em uma nova e ampla reestruturação interna. A rodada de demissões, que teve início em 28 de outubro de 2025, representa aproximadamente 4% do quadro corporativo global da empresa e pode se estender nas próximas semanas, chegando a até 30 mil desligamentos no total.
O movimento marca aquela que pode se tornar a maior demissão em massa da história da Amazon, superando o recorde anterior de 27 mil cortes feitos durante a pandemia, em 2022. Embora o número represente uma fração dos 1,55 milhão de trabalhadores da companhia, o impacto é expressivo sobre o setor corporativo, estimado em cerca de 350 mil pessoas.
A medida é parte de uma reestruturação conduzida pelo CEO Andy Jassy, que no início do ano criou uma linha anônima de denúncias internas para identificar gargalos de produtividade. O canal recebeu 1.500 respostas, resultando em 450 mudanças de processos e, agora, nas demissões em larga escala.
De acordo com o site Layoffs.fyi, que monitora cortes na indústria de tecnologia, as demissões seguem em ritmo elevado:
- 2022: 165 mil demitidos em 1.064 empresas
- 2023: 264 mil demitidos em 1.193 empresas
- 2024: 153 mil demitidos em 551 empresas
- 2025: 128 mil demitidos em apenas 218 empresas
Embora o número de empresas que demitem tenha diminuído, o tamanho das rodadas aumentou. Se em 2022 e 2023 a justificativa era o ajuste pós-pandemia, em 2024 e 2025 a nova palavra de ordem é IA.
E não é só a Amazon. Outras gigantes também vêm promovendo cortes expressivos:
- UPS: 48 mil funcionários desligados em 2025
- PwC: 5.600 cortes no segundo trimestre
- Target: 1.800 cargos de gestão eliminados (8% do total)
- Paramount: 2 mil empregos em dois ciclos de demissões
A inteligência artificial entra em cena
As demissões na Amazon não são apenas um ajuste operacional. Documentos internos obtidos pelo The New York Times revelam que a empresa pretende substituir mais de 500 mil empregos por robôs e sistemas automatizados até 2033, o que poderia gerar uma economia de cerca de R$ 60 bilhões.
A estratégia está alinhada à visão de Andy Jassy, que considera a inteligência artificial a tecnologia mais transformadora desde a internet. Em entrevista, o CEO afirmou que a rápida adoção de ferramentas inteligentes tornará desnecessário manter parte da força de trabalho atual:
“A inteligência artificial é inevitável, e as empresas que não a adotarem com rapidez vão ficar para trás.”
Por enquanto, os cortes afetam majoritariamente o setor corporativo, mas analistas acreditam que é questão de tempo até que a automação alcance também os centros logísticos, áreas em que a Amazon já vem testando sistemas automatizados de separação e entrega de pacotes.
O futuro do trabalho em xeque
A Amazon não está sozinha nessa transição. Em 2025, a Salesforce demitiu cerca de 4 mil funcionários, principalmente na divisão de atendimento ao cliente, após adotar agentes de inteligência artificial que hoje realizam quase metade das interações com consumidores da empresa.
A Palantir também seguiu o movimento, cortando aproximadamente 10% do quadro de funcionários ao longo do ano. A decisão está diretamente relacionada à integração de sistemas de IA para otimizar operações e reduzir custos. O CEO Alex Karp declarou que a meta é aumentar a receita em dez vezes com uma equipe mais enxuta, reduzindo gradualmente o número de funcionários, especialmente nas áreas administrativas e de TI.
Para os defensores dessa transformação, trata-se de uma evolução natural da economia digital, impulsionada por ganhos de eficiência e produtividade. Já para os críticos, é um avanço guiado mais pela busca por margens e lucros do que pela inovação social. Trata-se de um movimento que amplia os questionamentos sobre o futuro do trabalho e sobre o papel humano em um cenário cada vez mais dominado por algoritmos.
Enquanto corta na sede, cresce na nuvem
Ao mesmo tempo em que passa por esse processo de enxugamento interno, a Amazon reforça sua posição em outro pilar estratégico: a computação em nuvem. Desde 2022, a maior provedora cloud do mundo não registrava um crescimento tão expressivo. No terceiro trimestre de 2025, a AWS (Amazon Web Services) alcançou US$ 33 bilhões em receita, um avanço de 20% em relação ao ano anterior.
A Amazon foi a primeira big tech a transformar seus custos de hospedagem em fonte de receita, alugando a infraestrutura de seus data centers para terceiros. Hoje, a AWS representa cerca de 15% da receita total da empresa, mas é responsável por aproximadamente 60% do lucro operacional.
Com a entrada de Google e Microsoft no setor, a Amazon perdeu a exclusividade, mas manteve a liderança. Mesmo sob forte pressão competitiva, continua sendo a principal provedora global de infraestrutura em nuvem. No terceiro trimestre:
- AWS (Amazon): +20% de crescimento
- Azure (Microsoft): +40%
- Google Cloud: +34%
A crescente demanda por serviços de nuvem, impulsionada pelo boom das startups de inteligência artificial, só encontra limite na capacidade das empresas de construir novos data centers e ampliar o poder de computação. Nesta semana, a Amazon inaugurou um data center de US$ 11 bilhões destinado a atender a Anthropic, uma das principais desenvolvedoras de IA generativa do mundo.
“Vocês verão que continuaremos investindo agressivamente em capacidade, porque percebemos a demanda. Na mesma velocidade em que estamos adicionando capacidade agora, estamos monetizando-a”, afirma Andy Jassy, CEO da Amazon.
Além do desempenho robusto da AWS, a empresa também registrou aumento de 11% no volume de vendas no e-commerce e US$ 17,7 bilhões em receitas na vertical de publicidade.
Os resultados positivos agradaram o mercado, e as ações da companhia subiram 13% no aftermarket, reforçando o paradoxo que define a era atual da tecnologia: enquanto a automação gera impactos em postos de trabalho, ela também impulsiona os lucros e amplia o alcance das gigantes que a lideram.
Texto: Redação TI Rio