
Avanço dos agentes de inteligência artificial leva empresas a testar cobranças por tarefas, consumo e resultados entregues
A expansão da inteligência artificial agêntica começa a transformar não apenas o funcionamento dos softwares corporativos, mas também a maneira como as empresas de tecnologia estruturam seus produtos e receitas. O modelo tradicional de software como serviço, o SaaS, baseado em assinaturas, licenças e número de usuários, passa a dividir espaço com cobranças relacionadas ao uso, às tarefas executadas e aos resultados alcançados.
Diferentemente dos assistentes virtuais, que respondem a comandos específicos, os agentes de IA podem receber um objetivo, planejar etapas, consultar diferentes sistemas e realizar ações com menor intervenção humana.
Na prática, o cliente pode deixar de pagar apenas pelo acesso a uma plataforma e passar a contratar a execução de processos, como analisar documentos, qualificar potenciais clientes, responder solicitações, conciliar dados ou concluir etapas de atendimento.
Do acesso ao resultado
Uma análise da Bain & Company aponta que a IA agêntica não deve provocar o desaparecimento imediato do SaaS, mas pode transformar profundamente esse mercado. Nesse cenário, oferecer somente uma interface e um conjunto de funcionalidades tende a ser insuficiente. Dados próprios, conhecimento especializado, integração com sistemas, segurança e capacidade de executar fluxos completos podem se tornar os principais diferenciais competitivos.
A mudança também chega aos modelos de cobrança. De acordo com a TI Inside, empresas do setor já testam preços associados ao consumo e ao valor gerado. A Salesforce, por exemplo, adotou créditos vinculados às ações realizadas por seus agentes. A Exame também identificou movimentos de companhias como HubSpot e Atlassian em direção à cobrança por resultados produzidos pela IA.
Ainda não existe, porém, um padrão dominante. As empresas podem combinar assinatura fixa, volume de processamento, quantidade de tarefas e remuneração variável. Em vez de cobrar apenas por usuário, um fornecedor poderá estabelecer preços por atendimento resolvido, documento analisado, lead qualificado ou operação concluída.
Mais valor, mas também mais responsabilidade
A cobrança por resultado permite que a empresa de tecnologia capture uma parcela maior do valor criado para o cliente. Em contrapartida, aumenta sua responsabilidade sobre o desempenho da solução. Se o agente não entregar o resultado prometido, cometer erros ou realizar uma ação indevida, podem surgir questionamentos comerciais, jurídicos e contratuais.
Por isso, será necessário definir com clareza o que caracteriza uma tarefa concluída, quais margens de erro são aceitáveis, quando haverá validação humana e como serão tratados dados, auditorias e responsabilidades. A Deloitte avalia que os agentes devem modificar os orçamentos dos clientes, o consumo de software e as expectativas em relação aos fornecedores.
O desafio será ir além da simples inclusão de uma interface conversacional em seus produtos. Será preciso demonstrar que o agente resolve um problema concreto, reduz custos, aumenta receitas ou acelera determinada operação. A tendência, portanto, não aponta necessariamente para o fim do SaaS, mas para uma mudança importante: a passagem do software vendido como acesso para o software oferecido como execução e resultado.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser