A explosão de dados e a centralidade da tecnologia da informação nos negócios que estão provocando a expansão dos data centers pelo país colocam os CIOs diante dos desafios da sustentabilidade e da eficiência energética em ambientes de densidade cada vez mais elevada. Segundo pesquisa realizada pela Deloitte, o consumo de energia pela TI representa em média 30% a 40% do consumo total de energia de uma empresa. Embora o quadro nacional ainda esteja distante do cenário enfrentado por mercados mais maduros – nos Estados Unidos, os data centers consomem cerca de 2% de toda a energia gerada no país –, por aqui também executivos e projetistas se empenham na busca de soluções para redução do impacto nas contas.
“A eficiência energética é grande preocupação do pessoal de TI. As grandes empresas estão sensibilizadas”, observa Tereza Cristina Carvalho, coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade em TIC (Lassu), do Departamento de Engenharia da Computação e Sistemas Digitais da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo ela, as iniciativas incluem estratégias como renovação de parques com equipamentos mais eficientes e integração dos sistemas de gestão de TI com eficiência energética, entre outros parâmetros, além de maior virtualização.
A questão, diz Tereza, é que de modo geral os CIOs estão virtualizando muito os computadores e se preocupando muito pouco com a rede, responsável por cerca de 40% dos gastos energéticos de um data center. “A rede é pouco otimizada. Se em picos o serviço é razoável, em baixa está tudo ligado, sem ocupação”, aponta a especialista, que desenvolve pesquisa com a Ericsson para definir ponto de operação que não seja linear e colabore para gerenciamento de rede combinando ativação e desativação em função de índice de uso.
“A virtualização de rede está menos avançada, mas é uma tendência. A definição de rede por software, o open flow, é um dos tópicos mais quentes na área de pesquisa.” Tecnologias Latentes.
Para Claudio Soutto, diretor da área de Consultoria Empresarial da Deloitte, o mercado brasileiro mostra maturidade com a adoção de medidas para reduzir impactos nas empresas, como virtualização de servidores, computação em nuvem, terceirização e uso de infraestrutura como serviço. A questão é que a otimização do uso da CPU e as novas tecnologias de blades provocam tal adensamento que aumenta, e muito, a geração de calor – e o consumo de energia para o resfriamento. “A parte de refrigeração é a que menos se desenvolveu no data center”, diz Ricardo Schuette, gerente da Consultoria Empresarial, especialista da área de TI da Deloitte.
Segundo ele, estão na mira dos especialistas iniciativas e tecnologias latentes. Uma delas é remover a fonte dos equipamentos individuais e adotar um transformador único, da forma como já é empregada na área de telecomunicações com racks especializados. A dificuldade é que, além do altíssimo nível de conhecimento exigido dos profissionais envolvidos, isso elimina a mobilidade de servidores. Outra é a substituição de baterias dos no breaks por células de energia movidas a hidrogênio, mas o combustível ainda enfrenta dificuldades de produção. Mas por enquanto os investimentos são mais direcionados a tecnologias como trocadores de calor mais eficazes, que empregam o ar a ser descartado para preparar a entrada do ar externo em uma antecâmara de resfriamento que rende entre 5% e 10% de economia na conta de energia, e a automação de processos para maximização do uso dos recurso, na prática desligando os recursos fora de uso.
Cenário mais sustentável
A aceleração dos investimentos em data centers no país também colabora para traçar um cenário mais sustentável apoiado em novas soluções. Dados da Frost & Sullivan apontam que o Brasil respondeu por mais da metade (58,5%) dos 2,3 bilhões de dólares movimentados pelo segmento na América Latina no ano passado, e deve alcançar 59% até 2017, quando o continente contabilizará US$ 3,6 bilhões movimentados pelo segmento. Para o Gartner, os investimentos no Brasil devem crescer 40% até 2016 – estudos feitos pela empresa de pesquisa revelam que um em cada quatro novos projetos de data center no Brasil são voltados à modernização de infraestruturas existentes.
O setor financeiro encabeça o movimento de aportes milionários, em modernização, construção e consolidação de data centers. Um dos mais vistosos é o do Banco Itaú, que está investindo R$ 2,3 bilhões para construir e ativar um novo data center, em Mogi Mirim (SP), com base nos critérios LEED de sustantabilidade.
Mas já foi reconhecido na categoria Joint IT and Facilities Innovation, que premia ações inovadoras de ganhos de eficiência em tecnologias e reconheceu as iniciativas adotadas no data center instalado no bairro da Mooca, em São Paulo.
Entre elas, a virtualização de servidores, que já economizou 3,7 GWh desde sua implantação, a evolução dos mainframes, a aquisição de máquinas de refrigeração de precisão, o uso de desktops virtuais e a troca de monitores de tubo por LCD, que resultaram em economia de 1,9 GWh só no ano passado. O projeto incluiu ainda a melhoria da eficiência da infraestrutura, que baixou de 2,14 PUE (medida de eficiência de energia, na sigla em inglês), que baixou de 2,14 em 2004 para 1,6. A modernização tem proporcionado economia de energia de 1,5 milhão de kWh/ano, ou mais de meio milhão de reais anualmente.
Nem o sol atrapalha
Também não fica atrás a Cidade Digital, projeto montado pelo Banco do Brasil em conjunto com a Caixa Econômica Federal em Brasília que consumiu mais de R$ 320 milhões para construção e instalação de 25 mil metros quadrados de área total e 5,2 mil metros quadrados de piso elevado para TI. A estrutura vai consumir mais de 2 bilhões de dólares nos próximos anos em aquisição de equipamentos de TI.
O analista de TI Verde do Banco do Brasil, José Doralvino Nunes, lembra que a instituição desde o ano passado compõe o índice Dow Jones de sustentabilidade. No data center, isso rendeu quesitos como a construção orientada de forma a otimizar a interação com a incidência solar, evitando o aquecimento das paredes. O prédio da produção é revestido externamente, inclusive abaixo do telhado, por laminado metálico duplo, com miolo de material isolante térmico (poliestireno expandido), para reduzir o aquecimento solar e deixar para o ar condicionado apenas a missão de combater a dissipação térmica dos equipamentos de TI – a providência possibilitou redução de 400 TR (toneladas de refrigeração) na previsão inicial para o conjunto de máquinas de refrigeração, economizando algo equivalente ao sistema de ar condicionado de um prédio de escritórios com 8 mil metros quadrados de área útil. Também concorrem para a eco eficiência requintes como os programas que fazem a assepsia da arquitetura de informação. “Economiza em MIPs (medida de desempenho de processadores) e em quilowatts”, resume Nunes.
O banco, na verdade, tem uma coleção de atitudes verdes que permitiu a manutenção do consumo médio de energia entre 2010 e 2012, mesmo com a ampliação de 14% no quadro funcional – hoje são 12 mil funcionários. Outras apostam em inovação, como o quiosque totalmente movido a energia solar inaugurado em março em Salvador e as agências ecoeficientes – a agência de Pirituba, a primeira com certificação LEED, adotou técnicas de climatização que incluíram melhor aproveitamento da ventilação natural pela localização otimizada do edifício em relação às variáveis climáticas, telhado verde, jardim interno, paredes com tijolos de solo-cimento e geração de energia elétrica por células fotovoltaicas, chegando a economizar 46% na fatura de energia em relação à média nacional .
Dos negócios à segmentação das áreas
A Porto Seguro também apostou na eficiência energética em seu projeto, que incluiu a construção de uma nova central de classe mundial, finalizada em 2011, e a modernização de data centers mais antigos – um já foi atualizado, outro será terminado no início do ano que vem e um terceiro será desativado.
“Foram muitas dezenas de milhões de reais”, diz o CIO Italo Flammia.
Um projeto integrado buscou enfrentar o contrasenso entre sustentabilidade e alta disponibilidade. O primeiro passo foi aprofundar o conhecimento sobre processos de negócios para definir pontos críticos e desenhar a solução. “Com os requisitos de negócios definimos sistema e o hardware necessário, daí partimos para o planejamento e para o projeto da área onde ficariam acondicionados”, descreve o gerente do data center, Piero Bertolani Carli.
O especialista conta que tanto o layout do prédio de 7,7 mil metros quadrados – 1,35 mil metros quadrados de área útil para servidores – quanto a forma de disposição dos equipamentos foram pensados para otimizar características como eletricidade e climatização. “Só o desenho dos gabinetes demandou horas de projeto”, exemplifica. O piso onde o ar frio é insuflado tem registros para controle de pressão e vazão. Para a climatização foram utilizados equipamentos de precisão da Emerson, que trabalham em rede e são controlados por um sistema central. Compressores com funcionamento variável evitam desperdícios na geração de frio para as áreas climatizadas. Os no breaks são modulares. “Acrescentamos módulos à medida que a carga sobe. A eficiência do sistema está sempre acima de 96%”, comemora Carli. O projeto, cuja topologia definiu espaços segmentados para otimização dos equipamentos, mirou em 1,42 de PUE, com apoio de nomes como Schneider, Carrier e Siemens.
Novos desenhos
Outro projeto com eficiência energética de ponta é o da BM&FBovespa. Em seu novo data center, em construção em Santana do Parnaíba (SP), com 3 mil metros quadrados de piso elevado, sequer utilizará grama para não gastar energia com cortador, descreve Elie Bautzer Calabres, diretor de infraestrutura e produção. Com fornecedores como Caterpillar (geradores), Liebert (no breaks), Emerson (ar condicionado de precisão) e Johnson Controls (central de água gelada).
A estratégia energética da casa – que tem atualmente cinco data centers em funcionamento, dos quais um está sendo atualizado para servir de contingenciamento quando o novo for inaugurado – incluiu desde a avaliação de atributos como a demanda de energia e cooling para a escolha de hardware, incluindo storage e equipamento de redes, até a decisão de abandonar grandes blades, que economizam espaço mas não tanto em energia e ar condicionado.
“Voltamos a usar a tecnologia de equipamentos distribuídos, com máquinas que consomem abaixo de 300 kwh”, conta Calabres. Outra iniciativa foi distribuir os equipamentos de forma a cobrir toda a frente do rack.
Antes, por questões de manejo, era colocado um servidor em uma U (unidade de medida onde o servidor é abrigado no rack) e outra era deixada livre. “Percebemos a perda de eficiência de cooling. Mantivemos a intercalação, mas passamos a adquirir placas cegas. Agora, o ar frio passa só por dentro do servidor ligado, sem dispersão pelo buraco”, descreve o executivo. Só isso, diz, reduziu cerca de 25% a exigência das máquinas de ar condicionado – em 600 metros quadrados de um dos cinco data centers em operação hoje, essa distribuição foi utilizada em cerca de 200 racks, em um data center de 600 metros quadrados.
Já no novo data center foi adotado o conceito de enclausura mento de ar quente para os trechos de racks com baixa e média intensidade (com consumo entre 2 e 5 kw por metro quadrado), com racks dispostos como um retângulo, com o ar frio entrando por fora e o ar quente saindo por dentro.
“Para os trechos de altíssima densidade vamos usar racks com refrigeração líquida ou sistema de chaminé para insuflar ar frio por baixo”, diz Calabres. Outras medidas incluem manutenção minuciosa dos chillers para evitar perdas, desligamento das luzes – serão acesas apenas para instalação ou reparo – e adotar painéis elétricos que minimizam a transferência de calor para o ambiente.
“Vamos buscar a certificação LEED Silver”, adianta o diretor.
Site: CRN Brasil
Data: 06/08/2013
Hora: ——
Seção: Sustentabilidade
Autor: Martha Funke
Link: http://crn.itweb.com.br/44891/eficiencia-energetica-e-mandatorio-para-infraestrutura-de-ti/