
Chamada da RioFilme recebeu cerca de cem projetos e evidencia o crescimento de uma cadeia que reúne tecnologia, audiovisual, formação profissional e propriedade intelectual
O número de projetos inscritos no edital de games da RioFilme cresceu 72% em 2026. Aproximadamente cem propostas foram apresentadas, segundo a Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, indicando o aumento da demanda por financiamento e o avanço do ecossistema de desenvolvimento de jogos eletrônicos no Rio de Janeiro.
Com investimento de R$ 1,5 milhão em recursos municipais, o edital integra o Programa de Fomento ao Audiovisual Carioca 2026 e contempla três frentes: produção de jogos eletrônicos, desenvolvimento de protótipos jogáveis e distribuição de games já desenvolvidos. A iniciativa conta com o apoio da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e da Associação dos Criadores de Jogos do Estado do Rio de Janeiro, a ACJOGOS-RJ.
Embora o número de inscrições não corresponda automaticamente à quantidade de jogos que chegarão ao mercado, o crescimento das propostas revela uma base cada vez maior de empresas, profissionais e equipes capazes de estruturar projetos e disputar recursos públicos.
Games aproximam tecnologia e economia criativa
A indústria de jogos eletrônicos ocupa uma posição particular na economia digital. Sua cadeia produtiva combina desenvolvimento de software, programação, inteligência artificial, produção audiovisual, design, música, roteiro, marketing e distribuição por plataformas digitais.
Esse caráter multidisciplinar faz com que o setor gere oportunidades não apenas para estúdios especializados, mas também para empresas de tecnologia, produtoras audiovisuais, profissionais independentes e fornecedores de diferentes serviços digitais. Os jogos também podem resultar em propriedades intelectuais comercializadas mundialmente, ampliando o potencial de internacionalização das empresas brasileiras.
A Pesquisa da Indústria Brasileira de Games de 2023, produzida pela Abragames, estimou a existência de 1.042 desenvolvedoras no país. O levantamento também apontou que mais de 2,6 mil jogos próprios foram lançados entre 2020 e 2022, demonstrando que a produção nacional já possui uma estrutura empresarial relevante, embora formada majoritariamente por negócios de menor porte.
O ambiente regulatório também passou por mudanças importantes. Sancionado em maio de 2024, o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos reconheceu oficialmente o desenvolvimento de games como atividade econômica e segmento cultural, além de estabelecer medidas de incentivo ao ambiente de negócios, à formação profissional, à inovação e à oferta de capital para o setor.
Pioneirismo fluminense na formação profissional
Embora o edital da RioFilme seja direcionado prioritariamente a empresas sediadas na cidade do Rio de Janeiro, o crescimento das inscrições oferece um recorte da potência de uma dinâmica que alcança diferentes regiões do estado. O protagonismo fluminense nesse mercado também aparece na formação de profissionais e no desenvolvimento de iniciativas pioneiras fora da capital.
Em 2014, o Instituto Federal do Rio de Janeiro criou o Curso Superior de Tecnologia em Jogos Digitais no campus de Engenheiro Paulo de Frontin, no Sul Fluminense. Foi a primeira graduação na área oferecida por uma instituição pública federal no Brasil, o que levou o próprio IFRJ a defini-la como a “primeira faculdade federal de games do país”.
O curso prepara profissionais para atuar em áreas como programação, design, produção gráfica e desenvolvimento de jogos para diferentes plataformas.
A escolha de Engenheiro Paulo de Frontin também projetou o interior fluminense como espaço de formação e produção tecnológica. Além de qualificar mão de obra especializada, a iniciativa buscou estimular o empreendedorismo e a criação de empresas capazes de transformar o conhecimento produzido na região em jogos, serviços e novos negócios.
Fomento busca transformar projetos em negócios
A RioFilme passou a incluir os games em seu programa de fomento em 2022. Desde então, o município vem apoiando jogos completos, protótipos jogáveis, iniciativas de formação e eventos relacionados ao segmento.
O crescimento de 72% nas inscrições reforça a demanda por essas políticas. O próximo desafio será transformar o volume de propostas em jogos efetivamente produzidos, distribuídos e comercializados, criando condições para que os estúdios avancem da etapa de desenvolvimento para o mercado.
Mais do que entretenimento, os games representam uma atividade intensiva em conhecimento, capaz de gerar empregos qualificados, estimular empresas de tecnologia e levar produtos desenvolvidos no Rio de Janeiro a consumidores de diferentes países.
Texto: Bruno Nasser