Diretor operacional comenta as “polêmicas” do Startup Brasil

Se você faz parte da comunidade “startupeira”, provavelmente estava aguardando ansioso a divulgação dos nomes dos projetos selecionados para o Startup Brasil, programa de incentivo a startups do governo brasileiro, que aconteceu na última segunda-feira (29/07).

Ao todo, 56 startups foram selecionadas, 45 brasileiras e 11 estrangeiras. Elas receberão recursos do governo (na forma de bolsas para seus integrantes, via CNPq), além de apoio de uma das nove aceleradoras participantes do programa.

Como já era de se esperar, a lista causou polêmica. Muita gente se sentiu injustiçada e deixada para trás. Em grupos de discussão no Facebook, como o Startup Brasil e o SUP BRA, choveram reclamações. A principal era de que foram priorizados projetos que já estavam ligados às aceleradoras antes de se inscreverem para o programa.

Outras queixas anteriores – como dúvidas sobre o peso do currículo acadêmico na seleção e falta de transparência no processo seletivo – também voltaram à tona.

Para tentar colocar os pingos nos “is”, bati um papo com Felipe Matos, diretor de operações do programa Startup Brasil. Confira o que ele tem a dizer sobre as principais polêmicas levantadas pelos empreendedores e sobre o futuro do programa.

Como foi o processo de seleção, passo a passo? Qual foi o papel das aceleradoras na escolha?
Primeiro, todos os projetos passaram pelo crivo do CNPq. O objetivo era verificar se eles cumpriam todos os requisitos básicos – se preencheu a proposta completa, se o CNPJ tem até três anos, se especificou a equipe, se preencheu o canvas completo, se apontou a aceleradora, etc. Todos os projetos selecionados foram para avaliação da banca. Essa banca foi formada por membros do mercado, investidores de venture capital, executivos de grandes empresas de tecnologia, representantes do governo (MCTI e Apex) e membros da academia (aqueles que tinham contato direto com o universo empreendedor, donos de empresa ou ligados a movimentos de incubação). Essa banca pontuou todos os projetos e, depois, abriu um espaço para ouvir as aceleradoras. Elas defenderam alguns projetos que elas gostariam de acelerar. Teve projetos que a banca gostou e as aceleradoras não, e vice-versa. Alguns a gente cortou, outros a gente entendeu que eram relevantes. A gente entendeu que a aceleradora trazia a voz do mercado – afinal, se tem alguém disposto a investir no projeto, significa que ele tem algum potencial. Mas as aceleradoras não tiveram poder de veto nem de voto nas escolhas. Com os projetos escolhidos, teve um último momento, que foi uma conversa para distribuir os projetos entre as aceleradoras.

Há muitos casos de startups que já foram aceleradas aprovadas no programa. Startups aceleradas foram priorizadas na seleção? Isso está dentro das regras?

Algumas sim, mas não a maioria. O edital não proibia isso. Varias startups aceleradas participaram. Algumas passaram, outras não. Mas quem acha que é marmelada ou um jogo de carta marcadas, está enganado. O processo de avaliação passou primeiro pela banca. A gente nem tinha na banca a informação se a startup estava em aceleradora ou não. As aceleradoras tiveram voz no processo (até porque não adiantava aprovar projetos que não pudessem ser acelerados), mas não tiveram voto. É natural que alguns projetos acelerados estejam lá, porque já estão melhor estruturados. Mas estar em uma aceleradora não é garantia de nada. Tanto que vários tentaram e não passaram.

Qual o perfil das startups selecionadas?
Os perfis são bem diversos. Geograficamente, São Paulo teve mais projetos, seguido por Minas e Pernambuco, e, por fim pelo Rio. É interessante, porque, mesmo com a maioria das aceleradoras estando no Rio, a maioria dos projetos não é de lá. Teve projetos de vários setores – saúde, educação, logística, turismo, mineração, tanto B2B quanto B2C. Mais de 80% estão na fase de protótipo ou já têm alguma versão em operação. Menos de 20% estão só no conceito. Outro dado interessante é que todos os projetos têm pelo menos uma pessoa técnica e uma não-técnica, na área de gestão. Não foi um critério, mas 100% tinham essas características. Mais de 80% dos times são liderados por homens – o que tem a ver com a característica desse mercado.

Qual foi o peso da formação acadêmica na seleção?
O maior peso, segundo o próprio edital, era o modelo de negócio e foi isso que a gente priorizou na banca. Na sua maioria, as empresas selecionadas já estão no mercado, então isso já responde a questão. Priorizamos a parte comercial e modelo de negócios. O perfil acadêmico pesou pouco.

As aceleradoras marcaram entrevistas com os empreendedores?
O edital incentivava que as empresas conversassem. Em muitos casos, elas conversaram e isso era importante para que o próprio empreendedor conhecesse a aceleradora. Mas não era obrigatório.

Houve casos em que a aceleradora marcou uma conversa e depois desistiu…
Isso tem que ser avaliado caso a caso, mas, de novo, a conversa não era obrigatória.
Como fica o caso de empresas que já tinha recebido aporte da aceleradora que as “escolheu”? As aceleradoras não saem na vantagem?

Após a seleção, empresa e aceleradora precisam chegar a um acordo. No caso de uma empresa que já tinha um acordo prévio, vamos verificar se ele está dentro das regras do jogo (confira a tabela de participação x investimento do programa). Se não estiver, vai ter que rever. Por exemplo, se a aceleradora investiu pouco em troca de muita participação, vai ter que investir mais. Além disso, as empresas vão ser aceleradas novamente, com desafios e objetivos diferentes.

Qual startup vai para qual aceleradora? Quando isso vai ser divulgado?

Ainda não está fechado para onde cada startup vai, porque isso vai ser negociado agora. Foi atribuído um grupo de startups para cada aceleradora, mas talvez eles não cheguem a um acordo. Não temos como controlar o processo. Algumas aceleradoras têm que fazer due dilligence antes de começar o processo de aceleração. Isso leva pelo menos uns 30 dias. Mas antes disso, alguns processos de aceleração já podem começar. Assim que a lista estiver fechada, pretendemos divulgar.

Foi respeitado o critério regional? A cota de empresas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste foi atingida?

Não olhamos para isso primeiro. Priorizamos a qualidade dos projetos, até porque o edital tem uma segunda etapa e a cota era para o edital como um todo. Mas acabou próximo, o que foi ótimo. Significa que não precisamos trabalhar especificamente essa questão. De qualquer forma, na segunda rodada vamos trabalhar para ter mais projetos dessas regiões. O caminho que a gente busca é ir atrás dos bons projetos. O que a gente não quer e não vai fazer é baixar a régua para eles entrarem.

Qual o percentual de startups que foram pré-aprovadas, segundo as avaliações previstas, mas que posteriormente nenhuma aceleradora quis ou não se entendeu com a aceleradora?
Ainda não temos esse número porque as negociações com as aceleradoras ainda estão em andamento.

Como foi a atribuição de bolsas? Houve times que receberam menos que pediram? Por quê?
Cada um dizia quantas bolsas de cada modalidade queria. Na maioria dos casos, os pedidos foram aprovados. Só não aprovamos aquelas bolsas que não faziam sentido para o projeto.
Como os times podem usar as bolsas?

As bolsas são para remuneração dos empreendedores, mas cada um pode usar como quiser. Pode comprar um iPod, gastar tudo em cerveja ou reinvestir tudo na startup. Tem muitos empreendedores que vão reinvestir na startup. Cada um faz o que quer com o salário e não vai ter prestação de conta do dinheiro, só um relatório de atividades, ao final de 12 meses. Falhar faz parte do processo, mas o que a gente vai cobrar é comprometimento e trabalho. Isso a gente vai acompanhar de perto, assim como as aceleradoras.

Qual é o calendário para a segunda etapa do edital?
Devemos abrir inscrições em outubro e divulgar os resultados no final do ano.

Quem não passou agora, pode aplicar de novo?
Pode e deve. Vamos preparar um compilado com os principais erros e acertos para que os empreendedores deixem seus projetos mais competitivos.

Quem foi reprovado vai receber algum feedback? Como?
Sim, todos os participantes vão receber um email do CNPq com o resultado oficial e podem pedir um feedback. O prazo ainda não está definido.

Quais são as melhorias previstas para a segunda etapa do edital?
Vamos usar alguns dos aprendizados. A divulgação vai ser melhor. É um projeto super inovador. É novidade para a gente, para as aceleradoras e para os empreendedores. Nunca houve um projeto com tantas parcerias. Muita coisa a gente está aprendendo. É um processo de aprimoramento. A gente vai aprendendo e descobrindo. Por enquanto, estamos satisfeitos com os resultados. Mas o jogo começa para valer agora, com as empresas recebendo os recursos e sendo aceleradas.

Site: Exame
Data: 29/07/2013
Hora: 17h50
Seção: Blogs / Startup Blog
Autor: Daniela Moreira
Link: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/startup-blog/2013/07/29/diretor-operacional-comenta-as-polemicas-do-startup-brasil/

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