
Tecnologia pode comprometer sistemas atuais de criptografia a partir da próxima década, mas adaptação exige planejamento, investimentos e revisão da infraestrutura desde agora
A computação quântica ainda está distante da rotina da maioria das empresas, mas seus possíveis efeitos já começam a exigir atenção. O avanço dessa tecnologia poderá comprometer alguns dos principais sistemas de criptografia utilizados para proteger transações financeiras, dados pessoais, documentos, comunicações e acessos corporativos.
Durante o Febraban Tech, Enrique Vargas, diretor de desenvolvimento de negócios e parcerias empresariais para as Américas da IBM Quantum, afirmou que não é possível determinar quando os computadores quânticos serão capazes de quebrar os modelos atuais de criptografia. Segundo ele, no entanto, o alerta deve ser acionado a partir de 2030, com uma possível zona de risco em torno de 2035.
A data não representa uma previsão definitiva, mas serve como referência para uma transição que pode levar anos. Em grandes organizações, a criptografia está distribuída por servidores, aplicativos, bancos de dados, certificados digitais, APIs, equipamentos de rede, plataformas em nuvem e sistemas antigos. Antes mesmo de substituir essas tecnologias, será necessário descobrir onde elas estão sendo utilizadas.
O risco pode começar antes
Os computadores tradicionais processam informações por meio de bits, representados por zero ou um. Já os computadores quânticos utilizam qubits e exploram propriedades como superposição, emaranhamento e interferência. Essa estrutura permite executar determinados cálculos com uma capacidade muito superior à dos sistemas convencionais.
Essa vantagem poderá ameaçar especialmente algoritmos de criptografia de chave pública, como RSA e criptografia de curvas elípticas. Essas tecnologias estão presentes em certificados digitais, assinaturas eletrônicas, conexões seguras, sistemas de autenticação e operações realizadas pela internet.
O risco, contudo, não começa apenas quando um computador quântico conseguir quebrar esses algoritmos. Informações criptografadas podem ser capturadas e armazenadas hoje para serem decifradas no futuro, prática conhecida como “coletar agora e descriptografar depois”.
O problema é particularmente sensível para empresas que armazenam dados que precisam permanecer protegidos por longos períodos, como informações financeiras, dados de saúde, segredos industriais, pesquisas, contratos, propriedade intelectual e dados pessoais de clientes e funcionários.
Impacto alcança toda a cadeia empresarial
A adaptação à era pós-quântica não deverá se limitar à instalação de um novo programa. Ela poderá exigir atualizações em softwares, equipamentos, sistemas embarcados, plataformas digitais e produtos desenvolvidos para clientes. Em alguns casos, tecnologias antigas precisarão ser substituídas por não permitirem a adoção de novos padrões criptográficos.
A cadeia de fornecedores também representa um ponto de atenção. Uma empresa pode atualizar seus próprios sistemas e continuar exposta caso parceiros, prestadores de serviços ou plataformas contratadas mantenham padrões vulneráveis.
Bancos, seguradoras, empresas de saúde, telecomunicações, governos e organizações responsáveis por grandes volumes de dados sensíveis deverão enfrentar maior pressão. Entretanto, o alerta alcança empresas de todos os portes que utilizam pagamentos digitais, serviços em nuvem, certificados, sistemas de gestão ou armazenam informações de terceiros.
A migração também terá impacto financeiro. Diagnósticos, substituição de equipamentos, atualização de sistemas, contratação de especialistas, revisão de contratos e capacitação das equipes deverão entrar no planejamento de médio e longo prazo.
O que as empresas devem fazer agora
A primeira providência não é adquirir um computador quântico, mas mapear a infraestrutura existente. As empresas precisam identificar quais algoritmos, certificados e chaves criptográficas utilizam, onde estão instalados e quais informações protegem.
Outro passo importante é desenvolver agilidade criptográfica. O conceito representa a capacidade de substituir algoritmos e protocolos sem precisar reconstruir toda a infraestrutura tecnológica. Quanto maior a dependência de sistemas antigos e pouco flexíveis, mais demorada e cara será a transição.
Já existem padrões de criptografia pós-quântica desenvolvidos para resistir aos ataques esperados de computadores quânticos. A adoção deverá ocorrer gradualmente, depois de testes de compatibilidade, desempenho e segurança. Em alguns casos, as organizações poderão utilizar modelos híbridos, combinando a criptografia tradicional com os novos padrões durante o período de transição.
Entre as medidas que podem ser iniciadas estão:
- fazer o inventário dos sistemas e recursos criptográficos;
- identificar dados que precisam permanecer protegidos por muitos anos;
- avaliar a dependência de algoritmos potencialmente vulneráveis;
- consultar fornecedores sobre planos de migração;
- incluir critérios de segurança pós-quântica em novos contratos;
- preparar orçamento e cronograma para atualização tecnológica;
- capacitar as equipes de segurança e infraestrutura.
Tecnologia também abre oportunidades
Embora represente um desafio para a segurança digital, a computação quântica também poderá criar oportunidades. A tecnologia tende a ampliar a capacidade de resolver problemas complexos de otimização, simulação, aprendizado de máquina e equações diferenciais.
Essas aplicações poderão alcançar áreas como gestão de riscos, prevenção a fraudes, combate à lavagem de dinheiro, logística, saúde, indústria automotiva e desenvolvimento de materiais. Segundo estudo citado pela IBM, a computação quântica poderá gerar US$ 850 bilhões em valor quando atingir maior maturidade.
O desafio para as empresas será acompanhar simultaneamente as oportunidades e os riscos. A possibilidade de uma ruptura na criptografia atual ainda pertence ao futuro, mas a complexidade da adaptação torna o tema uma preocupação do presente.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser