Capital natural pode colocar deep techs latino-americanas em posição estratégica global

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Biodiversidade, agroecossistema tropical e minerais críticos podem se tornar vantagens competitivas para startups de base científica da região, aponta levantamento

Enquanto boa parte da corrida tecnológica global concentra investimentos em áreas altamente competitivas e intensivas em capital, como inteligência artificial, as deep techs latino-americanas podem encontrar uma vantagem competitiva justamente em recursos que outras regiões do mundo não conseguem reproduzir: seu capital natural.

Essa é uma das conclusões do Deep Tech Radar Latam 2026, levantamento da consultoria Emerge em parceria com o Cubo Itaú. O estudo mapeou 1.746 startups de base científica em 12 países da América Latina. O Brasil responde por 1.269 delas, ou 72,7% do total, com forte concentração em agronegócio e alimentos, com 427 empresas, e saúde e bem-estar, com 407.

A concentração não é casual. Biodiversidade, recursos genéticos, produção agropecuária tropical, biomassa e condições ambientais específicas oferecem matéria-prima e ambientes de experimentação para tecnologias difíceis de serem replicadas em outros países. Na saúde, isso pode resultar em novos fármacos, bioinsumos e ingredientes funcionais. No agro, abre espaço para biodefensivos, biofertilizantes e tecnologias de produção sustentável.

Um potencial ainda pouco explorado

Segundo o levantamento, quase metade das deep techs analisadas está ligada a apenas dois ativos estratégicos: agroecossistema tropical e diversidade biológica. Outros recursos abundantes na região, como minerais críticos, matriz energética renovável, água doce e cobertura florestal, ainda geram poucas empresas de base científica.

O problema não está necessariamente na ausência de mercado. Grandes empresas já operam nesses segmentos, mas muitas recorrem a tecnologias desenvolvidas no exterior. Para os autores do estudo, falta conectar três elementos: capacidade científica, atividade produtiva em escala e empresas dispostas a serem as primeiras clientes das novas tecnologias.

Essa combinação é especialmente importante para deep techs, que normalmente precisam de mais tempo e recursos para transformar descobertas científicas em produtos comercialmente viáveis. Centros de pesquisa, universidades, mecanismos públicos de financiamento e empresas capazes de testar soluções tornam-se, portanto, parte essencial desse ecossistema.

Ciência como ponto de partida para novos negócios

Um exemplo é a brasileira Nintx, que desenvolve terapias a partir de compostos bioativos da flora nacional. A empresa estabeleceu parceria com o Laboratório Nacional de Biociências, do CNPEM, obtendo acesso a extratos de diferentes biomas e à infraestrutura do Sirius para estudar moléculas naturais e possíveis alvos terapêuticos.

O desenvolvimento também foi sustentado por recursos públicos. Segundo a Agência FAPESP, a startup acumulou R$ 30 milhões em incentivos da Finep, além de recursos do PIPE-FAPESP e R$ 10 milhões em projetos da Embrapii. A redução do risco científico e tecnológico ajudou posteriormente a atrair investimentos privados.

O cenário aponta para uma oportunidade mais ampla. Em vez de disputar apenas mercados tecnológicos nos quais outras economias já concentram enormes volumes de capital e infraestrutura, startups brasileiras e latino-americanas podem transformar características próprias do território em tecnologia de alto valor agregado. Biodiversidade, minerais, energia, água e produção tropical deixam, assim, de ser vistos apenas como recursos naturais e passam a funcionar como plataformas para inovação, propriedade intelectual e novos negócios globais.

Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser

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