
Empresas japonesas transformaram décadas de pesquisa em materiais especializados em posições estratégicas na cadeia global de semicondutores
Três das empresas que mais se beneficiam do crescimento da inteligência artificial não são gigantes de software nem startups do Vale do Silício. São fabricantes japonesas conhecidas pela produção de temperos, fibras de vidro e vasos sanitários.
Toto, Nittobo e Ajinomoto chegaram à indústria de semicondutores por caminhos pouco convencionais. A partir do conhecimento acumulado em cerâmica, vidro e processos químicos, desenvolveram componentes essenciais para a produção dos chips que abastecem servidores, data centers e sistemas de inteligência artificial.
Toto: dos banheiros à fabricação de chips
Conhecida mundialmente por seus vasos sanitários e bidês de alta tecnologia, a Toto também fabrica cerâmicas avançadas para equipamentos utilizados na produção de semicondutores.
Entre os componentes estão os electrostatic chucks, placas de cerâmica de alta precisão que mantêm os wafers de silício posicionados durante etapas delicadas da fabricação dos chips.
No ano fiscal encerrado em março de 2026, a divisão registrou receita de 67,4 bilhões de ienes, crescimento de 34%. O lucro operacional chegou a 28,9 bilhões de ienes, alta de 42%. O segmento já responde por mais da metade do lucro operacional total da companhia, superando em rentabilidade o tradicional negócio de equipamentos para banheiros e residências.
O desempenho despertou o interesse de investidores. O fundo britânico Palliser Capital passou a defender que a Toto amplie os investimentos e dê mais visibilidade à divisão de semicondutores, considerada atualmente o principal motor de valorização da empresa.
Nittobo: a fibra de vidro dos servidores de IA
Fundada em 1923 e originalmente ligada à indústria têxtil, a Nittobo se especializou na fabricação de fibras de vidro. A empresa desenvolveu materiais como o T-glass, empregado em substratos que integram chips de alto desempenho.
Essas fibras oferecem estabilidade estrutural e resistência às variações de temperatura, características fundamentais para processadores, servidores e equipamentos de comunicação que operam em alta velocidade.
Com o avanço da inteligência artificial, as vendas da divisão de materiais eletrônicos cresceram 20,4%, enquanto o lucro operacional aumentou 39,7% no último exercício fiscal. O segmento respondeu por 91% do crescimento da receita da companhia, que agora amplia sua capacidade de produção para atender à demanda dos fabricantes de semicondutores.
Ajinomoto: do glutamato ao material que isola chips
A transformação mais inesperada talvez seja a da Ajinomoto. Conhecida pelo glutamato monossódico e por outros produtos alimentícios, a empresa desenvolveu, ainda na década de 1990, o Ajinomoto Build-up Film, o ABF.
O filme isolante ultrafino é utilizado no encapsulamento de semicondutores de alto desempenho. Ele permite organizar as conexões elétricas e evitar interferências nos processadores encontrados em computadores, servidores e equipamentos de rede.
A Ajinomoto afirma controlar mais de 95% do mercado mundial desse tipo de material. O produto tornou-se um padrão da indústria e colocou a fabricante de temperos em uma posição estratégica na infraestrutura digital global. No segmento que inclui o ABF, o lucro operacional cresceu 45,1%.
Décadas de pesquisa encontram o boom da IA
Esses negócios não foram criados recentemente para aproveitar o entusiasmo em torno da inteligência artificial. São resultado de décadas de pesquisa e desenvolvimento em materiais de precisão, com processos longos de testes e aprovação pela indústria de semicondutores.
O que a IA fez foi multiplicar a demanda. A expansão dos data centers exige volumes cada vez maiores de processadores, memórias e equipamentos de rede. Com isso, materiais antes direcionados a mercados especializados passaram a ser requisitados em escala industrial.
O caso das três empresas também evidencia a força do Japão nas camadas menos visíveis da indústria tecnológica. Embora o país tenha perdido espaço na fabricação de chips para Taiwan e Coreia do Sul, manteve uma posição relevante na produção de máquinas, componentes e materiais difíceis de substituir.
Os investidores perceberam esse movimento. Em 2026, as ações da Toto acumulavam valorização de 78%, enquanto Nittobo e Ajinomoto avançavam 63% e 61%, respectivamente.
A trajetória das três companhias mostra que o valor da inteligência artificial não está apenas nos modelos, aplicativos e plataformas que chegam ao consumidor. Ele também se encontra nos materiais microscópicos e nos componentes industriais que tornam toda essa infraestrutura possível.
No mercado da IA, quem desenvolve a tecnologia aparece mais. Mas quem fornece o material indispensável também pode ficar com uma parte bilionária do resultado.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser