Algoritmos à luz do dia: X e Instagram cedem à pressão por transparência

algoritmos à luz do dia x e instagram cedem à pressão por transparência

Bastou Elon Musk anunciar que cumpriria uma promessa antiga de abrir o código do algoritmo de recomendação do X para que Mark Zuckerberg também se visse pressionado a revelar parte do funcionamento do algoritmo do Instagram. Não é coincidência. Trata se de uma resposta direta a uma demanda crescente por transparência em plataformas que, há quase duas décadas, moldam comportamentos, hábitos e relações por meio de sistemas que sempre operaram como caixas pretas.

Desde o lançamento do Twitter, em 2006, e do Instagram, em 2010, o racional de recomendação de conteúdo permaneceu restrito a núcleos muito específicos das equipes de engenharia. Muitas vezes, nem mesmo dentro das próprias empresas esse funcionamento era amplamente conhecido. A lógica que define o que aparece no feed, o que ganha alcance e o que simplesmente desaparece sempre esteve fora do alcance do público. Agora, esse arranjo começa a ser tensionado.

O que o X revelou

No caso do X, a abertura foi literal. A plataforma publicou no GitHub o código do seu algoritmo de recomendação, conhecido internamente como Phoenix. Construído do zero e baseado na mesma arquitetura transformer utilizada no Grok, o sistema não opera por regras fixas ou listas estáticas de prioridade.

O Phoenix prevê até 15 possíveis reações do usuário diante de cada conteúdo, como curtir, comentar, compartilhar, ignorar, silenciar, bloquear ou denunciar. Cada uma dessas ações recebe pesos distintos. O algoritmo soma probabilidades, calcula cenários e decide, em tempo real, o que entra ou não no feed. Trata se menos de uma curadoria rígida e mais de um modelo de previsão comportamental em escala.

Musk afirmou ainda que o X passará a publicar atualizações do código a cada quatro semanas, acompanhadas de notas explicando o que foi alterado no período. Caso esse compromisso seja mantido, trata se de um movimento raro de abertura contínua em uma grande plataforma social.

O caminho mais cauteloso do Instagram

O Instagram seguiu uma rota bem mais conservadora. Em vez de expor o funcionamento interno do algoritmo, a plataforma anunciou que permitirá aos usuários escolher os tipos de conteúdo que desejam ver com mais frequência. A proposta é oferecer maior controle da experiência e, ao mesmo tempo, permitir que as pessoas compreendam melhor seus próprios padrões de consumo.

Na prática, trata se menos de transparência técnica e mais de personalização. O algoritmo permanece como uma estrutura opaca, ainda que com algumas alavancas visíveis ao usuário final.

Um debate que amadureceu

A pressão por transparência não é recente. Ela se intensificou à medida que as timelines deixaram de ser organizadas cronologicamente e passaram a ser mediadas por sistemas algorítmicos capazes de antecipar preferências, sugerir conteúdos e prolongar o tempo de permanência nas plataformas.

O que muda agora é o contexto. Reguladores, pesquisadores, jornalistas e a sociedade como um todo passaram a compreender que esses sistemas não são neutros. Eles moldam hábitos, influenciam decisões, organizam fluxos de informação e afetam diretamente a forma como as pessoas se relacionam com conteúdos, marcas, ideias e entre si.

Se essas iniciativas vão se traduzir em mudanças concretas na experiência do usuário ou se permanecerão no campo do discurso, só o tempo dirá. Ainda assim, o movimento é simbólico. Representa um avanço, ainda que inicial, na direção de maior transparência e de um debate mais maduro sobre o papel dos algoritmos no cotidiano digital e na vida em sociedade.

Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser

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