
Investimentos na tecnologia crescem mais de 60% ao ano, enquanto empresas avançam da IA que responde para sistemas capazes de executar tarefas. No Brasil, adoção cresce e novos negócios começam a disputar esse mercado.
A corrida pela inteligência artificial começa a avançar para uma nova etapa. Depois da expansão dos modelos generativos e dos grandes investimentos em infraestrutura, uma parcela crescente do capital está sendo direcionada aos agentes de IA, sistemas capazes não apenas de produzir respostas, mas de planejar etapas, acessar ferramentas e executar tarefas dentro de processos empresariais.
Um sinal recente da dimensão alcançada por esse mercado veio da Cognition AI, desenvolvedora do agente de programação Devin. A empresa captou US$ 2 bilhões em uma rodada que elevou sua avaliação para US$ 48 bilhões, quase o dobro dos US$ 26 bilhões registrados em maio. A receita anualizada também avançou rapidamente, de US$ 492 milhões para quase US$ 900 milhões no período. Mais do que um caso isolado, a operação ajuda a revelar a velocidade com que investidores estão precificando essa nova camada de aplicações baseadas em agentes.
Capital acompanha a passagem da resposta para a execução
Levantamento da Boston Consulting Group, realizado a partir de investimentos privados em aproximadamente 4 mil empresas, mostra que o capital destinado à IA agêntica cresce mais de 60% ao ano desde 2023. Mais de 55% dos recursos analisados estão concentrados em plataformas e tecnologias para criação e orquestração de agentes, enquanto cerca de 40% se direcionam a aplicações horizontais, como atendimento e gestão de conhecimento.
A lógica econômica por trás desse movimento está na passagem da assistência para a execução. Diferentemente das primeiras aplicações de IA generativa, agentes podem interagir com sistemas, acessar dados, utilizar ferramentas e executar sequências de ações. Com isso, a tecnologia começa a ocupar partes dos próprios fluxos de trabalho, abrindo uma nova frente de disputa dentro do mercado de software.
Os resultados começam a aparecer. O BCG cita o Nubank como exemplo: utilizando o Devin em uma grande migração de sistemas, o banco brasileiro registrou ganho de eficiência de até 12 vezes. Ao mesmo tempo, o avanço exige cautela. Segundo a consultoria, quase 60% das empresas pesquisadas ainda não identificam melhoria mensurável no custo total de contratos que incorporam IA agêntica. Capital e adoção, portanto, ainda avançam mais rapidamente do que a comprovação de retorno em parte do mercado.
Brasil entra na corrida pela adoção
No Brasil, os dados apontam para um mercado que começa a avançar da experimentação para a implementação. Pesquisa da Deloitte com 115 executivos brasileiros mostra que 95% das organizações pesquisadas pretendem adotar IA agêntica nos próximos dois anos. Atualmente, 55% afirmam customizar agentes em plataformas de grandes provedores de nuvem e 47% utilizam agentes disponibilizados por essas plataformas.
O cenário ainda é de maturação. Apenas 27% das empresas pesquisadas possuem modelos considerados maduros de governança para agentes. Em paralelo, levantamento realizado pela Strand Partners para a AWS mostra que metade das empresas brasileiras já utiliza alguma forma de IA, mas somente 15% alcançaram um estágio avançado de adoção.
Também começam a surgir negócios brasileiros construídos diretamente em torno desse mercado. Empresas como Loopia, Freedom e Runflow levantaram capital em 2026 para desenvolver e expandir plataformas e soluções baseadas em agentes. As rodadas ainda estão distantes das cifras bilionárias observadas nos Estados Unidos, mas indicam que o capital brasileiro também começa a financiar a camada agêntica da inteligência artificial.
Agentes encontram espaço no ambiente empresarial fluminense
No Rio de Janeiro, ainda não há dados específicos sobre a adoção de agentes de IA, mas os indicadores mostram uma presença relevante da inteligência artificial no ambiente empresarial. No recorte fluminense da Pesquisa ISSTIC, 71,4% das empresas pesquisadas utilizam Inteligência Artificial, tornando-a a tecnologia emergente mais adotada pelo grupo.
A Pesquisa TI Rio de RH 2025 reforça esse cenário: 62,2% das empresas participantes já utilizam ou planejam utilizar IA em treinamento, enquanto 48,6% apontam a tecnologia como prioridade de capacitação técnica.
Embora ainda não existam números específicos sobre o mercado de agentes de IA no Rio de Janeiro, os indicadores revelam um ambiente fértil à adoção dessa tecnologia. A presença da IA nos negócios, sua aplicação em diferentes processos e a demanda por capacitação apontam para um cenário em que os agentes de IA já começam a integrar o ecossistema empresarial fluminense. O que ainda falta compreender é a dimensão desse movimento: quantas empresas já utilizam agentes, em quais atividades e com que impacto sobre produtividade, custos e modelos de negócio.
Texto: Bruno Nasser