A espionagem da vida pública e privada em tempos de internet

Há muito fico indignado com algo que os governos e a comunidade que trabalha com segurança na internet já desconfiavam ou até mesmo sabiam. Por mais que se desenvolva software de segurança, sempre haverá alguém atuando para “quebrá-lo” no intuito de se apropriar das informações de terceiros. Ora, seria desprezar a natureza bélica do homem se assim não fosse, posto que a finalidade última da captura de informações entre nações tem esse objetivo, a guerra, ou salvaguardas contra ela – inclusive em suas outras formas, guerra industrial e comercial.

Seria muita ingenuidade nossa, imaginar que os serviços secretos não estariam onde a informação no mundo moderno se propaga, mesmo aquelas supostamente secretas e protegidas. Ou em última análise, não é possível acreditar que a espionagem não lançaria mão dos meios eletrônicos para justificar, inclusive, o seu próprio fim, que é espionar.

No caso específico dos Estados Unidos (EUA), a determinação pelo controle de informações, inclusive de particulares, ficou bem clara nas declarações oficiais do governo quando dos ataques às Torres Gêmeas, na cidade de Nova Iorque. Desde aquele trágico 11 de setembro, todos os analistas eram unânimes na visão de que nada mais seria como antes e que a guerra atingia outro estágio, não mais entre nações somente, mas entre grupos minoritários de interesses, no combate ao terrorismo, ou indivíduos isolados, dispostos a defender ideários absurdos e sob quaisquer pretextos.

Julian Assange e Edward Snowden são os verdadeiros protótipos dos heróis e ou vilões deste admirável mundo novo e que têm muito mais a perder do que a ganhar, inclusive com risco de vida e privação da liberdade. Na realidade, verdadeiros casos exemplares de lucidez ou loucura, dependendo de que ponto de vista se tome, porque trouxeram à luz fatos relativamente ignorados afetos aos serviços de inteligência neste nosso tempo de informações que circulam na velocidade da luz e em escala global. E da atuação deles surgem algumas preocupações de ordem moral e ética. A primeira é a delimitação das fronteiras, hoje nada nítidas, entre os estados nacionais em contraste com a atuação dos serviços de inteligência. A segunda, o uso da tecnologia para justificar essa verdadeira guerra virtual. A terceira, o papel das liberdades individuais sem uma distinção clara entre o público e o privado.

O assunto é vasto, por isso me limitei a essas indagações que carecem de destaque neste momento. Quanto ao delimitar território “dono” da informação dentro da internet, acredito ser impossível, por causa da natureza da própria internet, que desde que nasceu ignorou fronteiras.

Por outro lado, para eliminar a “guerra virtual” de espionagem, teríamos que passar pela censura interna de cada país sobre os usuários e, necessariamente, delimitar o território em que a informação poderia circular. Ou, numa hipótese mais absurda, utilizar “tecnologias” fora dos padrões modernos, como revelou o governo da Rússia, que retornou ao uso de máquinas de escrever para o não vazamento de informações vitais ao país. Ou ainda, avançando para o campo do possível, criar mecanismos internacionais, leis e tratados, para garantir o sigilo das informações públicas e os direitos individuais, o que seria um feito monumental, posto o número de interesses envolvidos.

Tudo isso que relatei aqui rapidamente serve aos países, mas o que dizer do cidadão comum, que tem suas intimidades bisbilhotadas e pouco pode fazer? Relaxar até que suas informações pessoais caiam em domínio público, ou alguém resolva usá-las para obter vantagens e da maneira mais vil possível, que é a chantagem? Creio que essa é a questão chave e que realmente nos interessa, porque vai nos exigir uma tremenda mudança de comportamento em relação ao uso da internet e redes sociais.

Site: IDG Now!
Data: 30/09/2013
Hora: 12h35
Seção: Tópicos
Autor: Wanderson Castilho
Link: http://idgnow.uol.com.br/blog/plural/2013/09/30/a-espionagem-da-vida-publica-e-privada-em-tempos-de-internet/

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