A corrida da IA coloca em xeque o modelo tradicional das empresas de software

a corrida da ia coloca em xeque o modelo tradicional das empresas de software

O avanço acelerado da inteligência artificial reacendeu um debate profundo no setor de tecnologia. Afinal, as próprias ferramentas de IA podem tornar obsoletas as empresas tradicionais de software?

De acordo com matéria publicada pela Reuters, a discussão ganhou força nas últimas semanas depois que ações de companhias do setor perderam cerca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, refletindo o temor de investidores de que novas plataformas baseadas em inteligência artificial substituam produtos de software corporativo.

Executivos de grandes empresas, no entanto, têm reagido ao que alguns já chamam de possível “apocalipse do SaaS”, referência ao modelo de software como serviço que dominou o mercado nas últimas duas décadas. Para esses líderes, a inteligência artificial não representa o fim do setor, mas uma nova fase de transformação tecnológica.

O debate ganhou força após declarações de Mike Sicilia, executivo da Oracle, que contestou a ideia de que ferramentas de IA capazes de gerar código e automatizar tarefas corporativas eliminariam a necessidade de softwares tradicionais.

Segundo ele, o risco existiria apenas se as empresas estabelecidas não estivessem incorporando a inteligência artificial aos seus produtos. Na visão do executivo, o movimento atual é justamente o oposto: companhias tradicionais estão adotando rapidamente a IA para desenvolver novos sistemas e automatizar processos completos dentro das organizações.

As preocupações do mercado surgiram principalmente depois que a startup de IA Anthropic lançou novos recursos para seu assistente Claude Cowork, capaz de automatizar atividades como organização de dados de clientes e execução de fluxos de trabalho empresariais, tarefas que historicamente eram realizadas por plataformas de software corporativo.

O chamado “apocalipse do SaaS”

O impacto dessas novas ferramentas provocou uma reação imediata nos mercados financeiros. Investidores passaram a questionar se softwares empresariais, especialmente os sistemas de gestão, CRM e automação de processos, poderiam ser substituídos por agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas diretamente.

Marc Benioff, presidente-executivo da Salesforce, também se posicionou contra essa visão. Ele argumenta que sua empresa está evoluindo de um fornecedor de software tradicional para uma plataforma de agentes de IA capaz de criar, implementar e gerenciar sistemas inteligentes integrados às operações corporativas.

Para reforçar esse argumento, a empresa apresentou a plataforma Agentforce, voltada ao desenvolvimento e gerenciamento de agentes de IA baseados em dados corporativos.

Outro nome influente que rejeitou a tese do colapso do setor foi Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia e um dos principais líderes da indústria de inteligência artificial. Para ele, a ideia de que a IA substituiria completamente o software é simplesmente ilógica.

Dados corporativos como principal defesa

Analistas e investidores ouvidos pela Reuters indicam que o principal fator de proteção para as empresas de software é o controle de grandes volumes de dados proprietários.

Sistemas corporativos acumulam ao longo de décadas informações complexas sobre finanças, logística, recursos humanos, processos de vendas e cadeias de suprimentos. Esses dados estruturados são difíceis de replicar e representam uma vantagem competitiva significativa.

A própria Oracle, por exemplo, opera vastos bancos de dados empresariais que alimentam aplicações críticas de negócios. Segundo especialistas, essa base informacional cria uma barreira natural contra novos concorrentes baseados apenas em inteligência artificial.

A Salesforce também possui uma vantagem semelhante. Sua plataforma de CRM gerencia mais de 50 trilhões de registros de dados empresariais em tempo real, profundamente integrados às operações de milhares de empresas ao redor do mundo.

Custos de substituição ainda são altos

Outro fator que protege as empresas estabelecidas é o chamado custo de troca. Muitas organizações passaram anos construindo suas operações em torno de sistemas corporativos específicos, o que torna a substituição por novas ferramentas um processo complexo e caro.

No entanto, analistas alertam que a IA já começa a reduzir essa barreira. Ferramentas capazes de gerar código automaticamente podem facilitar a criação de novos aplicativos empresariais com menos esforço humano e menor custo.

Essa mudança tende a aumentar a competição no setor.

Nem todos os dados têm o mesmo valor

Apesar das defesas apresentadas pelas empresas, especialistas destacam que nem todos os modelos de negócio possuem a mesma proteção.

Companhias que trabalham com dados altamente padronizados, como sistemas de folha de pagamento ou gestão de recursos humanos, podem enfrentar maior pressão competitiva. Nesses casos, a inteligência artificial pode aprender padrões e reproduzir funcionalidades com mais facilidade.

A Workday, empresa conhecida por seus sistemas de gestão de pessoas e folha salarial, viu suas ações caírem mais de um terço neste ano após uma previsão fraca de vendas. A companhia chegou a trazer de volta seu fundador, Aneel Bhusri, para liderar a empresa neste novo cenário dominado pela inteligência artificial.

Bhusri argumenta que os sistemas da empresa incorporam décadas de processos empresariais que não podem ser replicados facilmente por modelos probabilísticos de inteligência artificial.

Reinvenção do software

Apesar das incertezas, parte dos analistas acredita que o setor de software empresarial será mais resiliente do que o mercado tem sugerido.

A expectativa é que a própria inteligência artificial aumente a produtividade das empresas e crie novas demandas por ferramentas tecnológicas, impulsionando crescimento e inovação.

Nesse cenário, em vez de desaparecer, o setor de software pode passar por uma profunda reinvenção, transformando-se em plataformas capazes de orquestrar agentes de inteligência artificial, dados corporativos e automação de processos em escala.

Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser

Pesquise no TI RIO