
Projeto MatrAIx reúne perfis artificiais baseados em características demográficas, psicológicas e comportamentais para simular como diferentes usuários reagiriam a produtos, serviços e sistemas de inteligência artificial
Imagine testar um aplicativo, uma política de preços ou um sistema de inteligência artificial com milhões de usuários antes mesmo de colocá-lo no mercado. Essa é a proposta do MatrAIx, projeto que reúne 8,3 bilhões de registros de personas, número próximo ao tamanho da população mundial.
Isso não significa que foram criados bilhões de seres humanos virtuais ou cópias de pessoas existentes. O sistema organiza uma enorme população estatística a partir de 1.290 dimensões, incluindo características demográficas, psicológicas, comportamentais, hábitos e estilos de vida. Esses perfis são interpretados por modelos de linguagem, que passam a interagir com produtos e sistemas como se fossem usuários com determinadas características.
Parte dos registros foi construída com informações humanas, extraídas de biografias, avaliações de produtos e pesquisas sociais. Outra parte foi gerada sinteticamente com base em relações estatísticas entre atributos. Para pesquisas públicas, os responsáveis disponibilizaram um conjunto menor, com aproximadamente 1 milhão de personas.
Um laboratório de comportamento digital
O MatrAIx permite realizar testes em pesquisas, chatbots, sites e aplicativos. Uma empresa pode simular como diferentes consumidores reagiriam a um aumento de preço, observar se abandonariam uma compra diante de alguma dificuldade ou avaliar quanto tempo tolerariam esperar por uma resposta. O projeto já reúne 1.010 tarefas em mais de 25 áreas, como comércio, software, finanças e saúde.
A promessa é reduzir o custo e o tempo de pesquisas de mercado e testes de usabilidade. Além disso, uma mesma população artificial pode ser submetida a diferentes versões de um produto, permitindo comparar os resultados sob condições controladas. Na prática, a IA passa a funcionar como um laboratório digital, no qual produtos podem ser experimentados antes de chegar às pessoas reais.
Simular não é compreender
A principal limitação está na distância entre uma persona e um ser humano. Modelos de linguagem podem reproduzir estereótipos, simplificar diferenças ou ignorar características atribuídas ao perfil. Nos testes dos pesquisadores, as personas expressaram ou suprimiram corretamente os comportamentos indicados em 91,5% dos casos. O resultado é relevante, mas mostra que a representação não é infalível.
Existe ainda uma questão decisiva: quando uma persona responde, estamos observando o comportamento da população representada ou a maneira como o modelo de linguagem imagina que ela deveria agir?
O MatrAIx não substitui pesquisas com pessoas reais. Sua principal utilidade está em permitir que empresas experimentem primeiro em uma população artificial e, depois, validem os resultados com seres humanos. Os 8,3 bilhões de registros não formam uma humanidade digital, mas um enorme espaço de possibilidades criado para prever como diferentes pessoas provavelmente reagiriam a um sistema. A resposta pode chegar em minutos. A dúvida é quão próxima ela estará da realidade.
Texto: Redação TI Rio
Curadoria Editorial: Bruno Nasser